A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Solidão

O final de ano para muitas pessoas significa união, paz, amor, esperança, planos, festa, alegria, para muitas outras é um tempo de reflexão e para outras tantas período de solidão. 

A palavra solidão no dicionário aurélio significa: Estado de quem está só, retirado do mundo; isolamento. Ermo, lugar despovoado e não frequentado pelas pessoas. Isolamento moral, interiorização.

Lendo esse significado comecei a questionar: a solidão é puramente algo ruim? Triste? Isolado? Fui atrás de textos que tratavam desse assunto e dois livros me fizeram entrar em contato com a solidão no seu aspecto positivo. O livro "Solidão" de Anthony Storr e o livro "Comer, Reza, Amar" Elizabeth Gilbert.

A solidão pode ser vista como algo puramente ruim se focarmos no isolamento, na tristeza, na depressão, não no sentido do adoecimento físico, mas no adoecimento da alma. Mas a solidão em muitos aspectos é necessária para a vida da pessoa, pois ela proporciona um momento de contato com a alma, de contato com aquilo que realmente é, com aspectos bons, aspectos a serem melhorados e a possibilidade da criação que, quando se está em estado de solidão, pode ficar iminente. 

No livro "Comer, Rezar, Amar" Elizabeth usa de momentos grandiosos de solidão para buscar seu equilíbrio, entrar em contato com tudo aquilo que era parte essencial de sua vida, sofre, encontra a paz, e por fim a possibilidade do amor. Entra em contato com seus anjos e demônios e abre o canal para uma nova forma de viver. 

No livro Solidão, Anthony Storr, questiona aspectos da nossa sociedade que diz que o único caminho para a felicidade é o relacionamento. Pois não é, existem muitas formas de encontrarmos a felicidade, o problema é que damos pouca atenção a outros aspectos de nossas vidas, como a criatividade e o valor do nosso trabalho. O autor, com sabedoria, fala da solidão em seu aspecto positivo.

É importante, compreendermos que, valorizar o trabalho, não significa viver para e pelo trabalho, mas que essa função pode ser uma das fontes de felicidade. Assim, como para muitas pessoas o relacionamento amoroso é fonte de felicidade, desde que a relação  não vire o motivo único de sua existência. É importante sabermos que há uma possibilidade de relacionamento consigo, que pode sim, ser uma grande fonte de satisfação e felicidade. No entanto, essa forma de viver é vivida por muitas pessoas de maneira tranquila, mas para muitas outras é algo inconcebível. Existe uma grande chance de ser feliz sozinho, desde que haja harmonia e paz interior. 

Final de ano, como disse no início do texto, é para muitas pessoas um período triste. Mas como lidar com esse tristeza do final de um ciclo e início de outro? Temos a capacidade de olharmos por vários canais, mas o mais importante é que se optarmos pela nossa solidão, que seja uma solidão criativa e não uma solidão de isolamento e paralisação

Saibamos finalizar o ano com a possibilidade do novo e não com o medo do desconhecido. Que no momento em que a solidão bater, que o diálogo com esse estado emocional seja estabelecido, para que possa com amor, cuidar de algo tão precioso como o sentimento. 

A solidão pode ser o seu caminho para a esperança, basta olhar com carinho e compaixão pela sua vida. O isolamento afasta, não só dos outros, mas principalmente de si. No entanto, a solidão pode ser um caminho de proximidade e de transformação. Acredite em você!

Desejo a todos um final de 2010 com sabedoria, paz interior e muito amor. Agradeço aqueles que acompanham meu blog e que me inspiram a escrever cada vez mais. 

Muito obrigada!! 

domingo, 7 de novembro de 2010

Cultura Fast Food

Estava eu na casa dos meus sogros e vi uma cena que me fez pensar: lá estava meu sogro ouvindo o canto dos pássaros. Há quanto tempo não parava para ouvir o canto? Há quanto tempo não me permitia ver a diversidade de aves e plantas? Quando era criança os sábados e domingos eram feitos para descanso, os feriados todos muito bem aproveitados em família, com pais, irmãos, primos, tios, avós, vizinhos... A nossa vida décadas atrás era uma vida bem vivida.

Hoje estamos em um ritmo muito diferente, onde parar para ficar sem fazer nada é no mínimo perda de tempo. A nossa cultura hoje é a cultura do fast food. Tudo sempre muito rápido. Os relacionamentos começam e terminam com uma rapidez incrível, as amizades tem prazo de validade, as refeições então, nem se fala, quanto mais rápido melhor. 

As horas de lazer estão cada vez mais restritas as férias.Quem não se pegou dizendo: "Nas férias eu vou parar para ler aqueles livros que eu tanto quero"? ou "Nas férias eu vou ao cinema"? Hoje temos que correr atrás de não sei o que. Trabalho não falta, seja trabalho profissional, o serviço doméstico, cuidado com as crianças, com os cachorros. Quantas pessoas viviam esses cuidados com prazer e hoje é visto como trabalho?

Quantas pessoas chegam na terapia e diz: Isso demora muito? Costumo dizer, esse foi o tempo que você se reservou, quer terminar assim tão depressa? Algumas pessoas não conseguem arrumar um tempo para olhar para si, sem hora para terminar. 

Quantas pessoas notam um grau de estresse grande por não conseguir parar? Até para dormir, tem que deitar e dormir rápido, se não.... perdeu tempo. Aqueles tempos onde os filhos podiam deitar na cama dos pais antes de dormirem, tempo reservado só para conversas, risadas, cócegas, isso tem ficado cada vez mais escasso. 

Isso me faz concluir que estamos sim perdendo tempo. Perdendo o nosso tempo para a família, os amigos, o tempo do convívio e do amor.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Maysa M. Matarazzo: a maternidade, o feminino e o criativo

Por que falar da maternidade e do feminino atual trazendo como referência uma mulher de décadas passadas? O que essa mulher tem de tão atual e tão distante ao mesmo tempo? Nada mais coerente do que trazer Maysa unida a mulher contemporânea. O que tem em comum? A busca da alma.

Nascida em 06 de junho de 1936, de família abastada, aos 6 anos foi para um internato. Esse internato era considerado um dos melhores colégios formadores de boas damas. Rígido e causa das maiores dores de Maysa por ter uma alma livre. Aos 18 anos casa-se com um homem de uma família de renome que projeta Maysa ao sucesso. Dona de uma talentosa voz e um olhar inesquecível começa sua carreira artística sem aprovação dos Matarazzo.

Maysa foi intimada a calar-se, a fazer escolhas. O que a levou optar por seu dom artístico? Hoje nem todas as mulheres se calam no trabalho, mas onde estão sendo obrigadas a se calarem?Será que há escolha entre família, mãe e profissão? Creio que sim! Maysa conseguiu fazer essa escolha verdadeiramente? E nós conseguimos fazer as nossas? Pode parecer estranho e antigo, mas muitas são mutiladas na possibilidade de desenvolvimento.

Maysa, tinha composto uma música (O que) que retratava a busca interior de algo que não sabia o que. Assim como Maysa, muitas mulheres buscam no externo, o preenchimento do vazio interno. Mas onde está o problema de tanto vazio?

A função feminina estava atrelada ao ser esposa e mãe. O lado artístico, que era visto como algo inadequado, tinha como única possibilidade estar ligado ao lazer. Muitas mulheres atuais se deixam atingir da mesma forma, abrem mão daquilo que é essência em nome de um casamento, religião. Ainda se calam, não entram em contato com a voz interior, assim como os homens que com elas estão se calam em seu processo de encontro com a alma.

Maysa foi uma menina livre que transgrediu e chocou. Casou e tornou-se mãe, talvez num momento errado. Enquanto mulher ela não tinha recurso interno, porque o feminino criativo estava na arte e não na moralidade.

Hoje a mulher tem a possibilidade de escolher o seu caminho, mas será que é uma escolha consciente? Penso que a maioria das mulheres ainda cumprem inconscientemente o papel social, muitas precisam se assemelhar ao homem para poder sentir-se forte e protegida desse mundo que pode ser tão opressivo.

Por imposição social Maysa não teve oportunidade de vivenciar sua alma completa, o lado amoroso e artístico, o que culminou com sua morte. E nós como estamos cuidando da nossa alma?


(Trabalho Apresentado no XVIII Congresso Internacional da AJB)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Convivendo com o Luto

A morte é o que se tem de mais certo, mas não podemos dizer que somente a morte do corpo físico nos faz vivenciar o luto. 

Perder alguém que nos foi caro, perder para vida ou para morte nos leva a sentimentos de solidão, vazio, tristeza e muitas vezes à depressão. Mas será que o luto é algo puramente ruim? Se olharmos pelo viés da morte, perder alguém que amamos é sim algo ruim, triste e que somente o tempo irá apaziguar a dor interior. Perder é difícil, suportar a dor da ausência, da saudade é ainda mais doloroso, mas como olhar para esse fim? 

Atualmente temos nos deparado com algumas publicações espíritas na mídia. A globo retratou na novela das seis "Escrito na Estrelas" uma visão pós morte, Chico Xavier no cinema com a comunicação com um mundo, que na visão espírita, não acaba com a morte do corpo físico. Por fim, o último lançamento do cinema brasileiro com o filme Nosso Lar que bateu recorde de bilheteria. Será que a população está sentindo falta de uma visão mais explicativa da vida a pós a morte? Pode-se dizer que sim.

Olhando pelo viés da vida, perder algo que parecia tão estável e seguro pode ser um grande impulso de mudança de vida. Perder um emprego, um casamento, para algumas pessoas é a mola propulsora para obter uma nova forma de viver e olhar a vida. A perda, quando positiva, trás uma nova chance de fazer algo diferente, re-significar e perceber o tamanho de sua força, os seus limites, descobrir potenciais e principalmente entrar em contato com a trasnformação. Seja através do sofrimento da perda ou pela opção de mudar, pode ser positivo para muitas pessoas. 

A dor, o sofrimento é para algumas pessoas paralisante e para muitas outras a chance de dar uma volta por cima. Se olharmos nossas vidas como um processo de desenvolvimento físico, psíquico e espiritual podemos passar por todos os obstáculos naturais da vida com o olhar da possibilidade de crescimento.  Ir além, ir adiante, sofrer no momento que precisar sofrer, e saber seguir no dia seguinte. 

Chorar por que perdeu um filho, um amor, uma mãe, um pai, irmão, emprego, e qualquer coisa que tenha valor para você é natural. É de extrema importância vivenciar o luto. Mas, no momento em que a dor o faz ficar estagnado pode ser o início da morte de seu próprio processo de desenvolvimento. Saber e querer sair dessa condição é base para passar pela luto e continuar vivendo. 


domingo, 8 de agosto de 2010

Mulher contemporânea

Hoje em dia encontramos casais que entram no dilema atual de independência. A crença da possibilidade de independência cai a partir do momento que percebemos o quanto dependentes somos. Se tudo está interligado, se vivemos numa sociedade onde temos pessoas que trabalham para manter a ordem, precisamos umas das outras. Como viveríamos sem os governantes, empresários, garis, lixeiros, médicos? O conflito acontece no âmbito da ilusória independência.

Alguns homens encontram-se perdidos por não saberem lidar com as mulheres atuais. Mulheres que trabalham, que casam ou não, escolhem serem mães sem nem sequer precisar de um marido. Homens que olham para a mulher como uma competidora e acreditam que precisam preservar a liberdade da sua vida financeira e pessoal. Quantas mulheres ouvimos reclamar das noitadas do namorado, marido? Quantos homens ouvimos reclamar da dureza e da possessividade? Tudo parece tão fora do lugar e onde está o problema? Quantas mulheres correm e se esgotam por terem a crença de que precisam dar conta de tudo? Quantas se escondem atrás de uma fortaleza? Dessa forma a fragilidade não pode mais fazer parte do universo feminino. Aparece então a queixa da falta de compreensão e companheirismo do parceiro. Onde está aquele homem que protegia?

A partir do momento que a mulher não dá espaço para o homem aparecer ele falhará, pois entrarão ambos em uma competição. A mulher agirá como independente e o homem naturalmente de forma omissa, o que em muitas vezes é alvo de reclamação de muitas mulheres. E no instante em que o homem não permite a fragilidade da companheira, ele passa a cobrar uma mulher perfeita não só nas atitudes como também fisicamente, além de ter que se manter forte diante das diversas situações.

Muito se perde na relação quando a mulher se deixa levar pela intransigência e por uma falsa ideia de ser dona de si mesma. Falsa porque está ligada ao concreto. A conexão com a essência, com a alma, se perde a partir do momento que precisa crer na capacidade de dar conta de tudo e todos. O homem passa agir com distanciamento, esquecendo da função da proteção. Enquanto a mulher acolhe, o homem assegura. Se os papéis se perdem, tudo se perde.

E nas relações homoafetivas, não é diferente. Sempre haverá aquele que atua na sua função feminina que acolhe, que cuida, e o outro na função masculina, que protege e assegura. Psiquicamente temos em todas as relações as funções atuantes, a feminina e a masculina.

É importante que nas diversas situações as pessoas aprendam a respeitar seus limites, a perceber suas qualidades, suas capacidades, potencialidades, seus defeitos; aprendam a esperar menos do outro e a estar na relação mais próxima da sua forma de ser. Que faça pelo parceiro aquilo que não só agrade ao outro, mas também a si mesmo. Que aprendam a conviver com as diferenças sem tem que mudar aquilo que para o outro é essência. O relacionamento deve se basear na conjugalidade, não naquela que limita a liberdade, mas sim naquela que entra na comunhão do casal.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ciúmes


Faço uma síntese do texto "Ciúmes e Amor" de Carlos Amadeu Botelho Byington, para trazer um tema complexo que frequentemente aparece no consultório como causa de sofrimento.  

Para melhor entendimento exporei, a partir da explicação do autor, o significado da função estruturante. Esse termo é importante compreender pois, o autor define o ciúmes como sendo uma função estruturante. O exemplo que ele traz: a doença é um símbolo estruturante e o medo da doença a função estruturante. O livro é um símbolo e a vontade de ler é uma função. As funções da vida são por ele descritas como sendo as funções estruturantes. 

No texto "Relacionamento, Amor e Poder" pude discorrer um pouco sobre o que Jung dizia: "Quando o poder entra por uma porta o amor sai pela outra". Para falar do ciúmes é importante termos em mente que o amor e o poder andam juntos, mas não podem ser colocados num só lugar. O autor traz em seu texto que o ciúmes acompanha o amor, assim como a inveja acompanha o poder. O ciúmes quando é sentido no seu estado natural atua como protetor, o guardião do amor. Assim, é ele como função estruturante, que delimita os direitos e deveres que o amor possui. Quando essa barreira é rompida o ciúmes torna-se defensivo, inadequado e possessivo, destruindo o amor. 

Muito sabiamente Carlos Byington explica que o ciúmes quando é desrespeitado atua com ira, perseguição e castigo na psique e no comportamento da pessoa, que se vê sofrendo com um ciúmes possessivo. Notamos isso claramente nas relações em que as fantasias são exploradas, não somente as do indivíduo ciumento como as do outro, colocando o parceiro na maior exposição da sua intimidade. O autor cita uma frase que reproduzo, por acreditar na profundidade dela. "Se aprende com o ciúmes que, acreditando amar, há um ferimento numa das grandes qualidades do amor, que é a intimidade". Ou seja, na prova que o outro dá de amor, expondo toda a sua intimidade, pode ser um veneno para a relação, pois poderá se tornar uma armadilha. O bem e o mal está em todos nós. Aquilo que nos faz bem e nos faz mal está presente, resta-nos aprender a reconhecer e escolher qual caminho seguir. 

O ciúmes é saudável quando você reconhece que não gosta de ouvir e saber do passado do outro, mas se conforma de não ter conhecido-o antes e poder ter explorado a vida junto com a pessoa amada. Ter ciúmes do passado, pode ser algo natural quando há uma consciência de que ali existe algo a ser preservado e respeitado na privacidade e intimidade do outro. O ciúmes possessivo aparece quando se perde o contato com o amor e surge uma curiosidade controladora. O maior erro contra o amor é o poder que o controla. O ciumento possessivo exige do outro algo precioso para relação, a intimidade. Quando a intimidade é desrespeitada em nome de um amor, ela certamente irá atuar de forma descontrolada, ferindo o outro e a si mesmo. Qual o resultado? O ciúmes com o amor constrói. O cíumes com o poder destrói. Tudo é uma questão de escolha. 
   




segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Relacionamento dos Opostos

Muito ouvimos dizer: o meu namorado, marido é exatamente o meu oposto. Quantos casais conhecemos que dizem estar em companhia de uma pessoa tão diferente? Nesse texto vou trazer uma reflexão sobre a sombra nas relações conjugais. Será que aquilo que o outro tem, que nos foi num primeiro momento objeto de admiração está tão distante daquilo que sou? Para isso, irei me embasar no capítulo de  Maggie Scarf do livro "Ao Encontro da Sombra".

Trabalhar com a sombra não é trabalhar com algo só negativo, tem um aspecto de potencialidades que podemos enxergar no outro e não conseguimos perceber em nós. No relacionamento podemos notar o quanto aquela qualidade que foi tão atraente tornou-se motivo de grandes discussões. A autora traz em seu texto a importância de diferenciar aquilo que de fato é sentimento, desejo, pensamento que está dentro de nós e aqueles que estão dentro do parceiro. 

É necessário delimitar e perceber o que é nosso e o que é do outro. Por exemplo, você é uma pessoa sociável, comunicativa, positiva e vive com outra pessoa caseira, pé no chão, estável e pessimista. A segurança que ele te trouxe no início passa a ser um problema depois, pois o que prevalece é a monotonia. E aquilo que para ele era motivo de admiração, pois via uma mulher alegre e com vigor passa a ser visto como superficialidade. Ok, e agora? 

A autora traz o argumento de que as características estão em ambos, o segredo é poder assumi-las, perceber que um não precisa carregar pelo outro uma necessidade que é do relacionamento. Normalmente é feito um acordo inconsciente para que as necessidades sejam supridas a partir do outro, gerando assim um conflito interpessoal. 

É importante que haja a transformação do conflito interpessoal para um conflito intrapsíquico, ou seja, poder recolher as suas necessidades, as necessidades do outro e as do relacionamento, diferenciar e assim evitar uma projeção e uma expectativa quanto ao comportamento do parceiro. Ambos unem-se para conhecer do outro e de si mesmo.  

Para finalizar trago um parágrafo da autora que deixa evidente o quanto tudo está interligado, e que os opostos nada mais são do que a nossa sombra no relacionamento.

"Muitos casais parecem ser pólos opostos. São como marionetes num espetáculo: cada um deles desempenham um papel bem diferente do outro na parte do palco que está aberta ao olhar do observador objetivo; mas, fora de vista, os cordões das marionetes se emaranham. Eles estão profundamente enredados e emocionalmente interligados, abaixo do nível da percepção consciente de cada um. Pois cada um deles incorpora, carrega e expressa pelo outro os aspectos reprimidos do eu (o ser interior) do outro".  


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Relacionamento, Amor e Poder

Grande parte das pessoas têm problema com relacionamentos, amam, querem estar juntos mas ... são tantas as brigas. Vimos nos outros textos a importância da comunicação e o quanto ela é fundamental para se ter um bom convívio. No entanto, outros aspectos estão em jogo e venho discutir nesse texto um pouco sobre amor e poder.

Lendo o livro "Conhecendo a Si Mesmo" Daryl Sharp, encontrei um parágrafo no qual me detive por algum tempo e reproduzo para vocês: "Eu o amo do jeito que você é, não pelo que você me dá, não pelo que eu quero que você seja ou gostaria que fosse, mas pelo que você é. Quem conseguir chegar a esse ponto, na minha opinião terá o que honestamente pode ser chamado de relacionamento psicológico. Qualquer outra coisa não é amor, e sim poder".

Esse é um grande dilema, eu o amo mas não entendo porque age de forma tão diferente. Sim, as pessoas são diferentes e não vão atingir todas as nossas espectativas. O que nos resta fazer é decidir. Ter que fazer o sacrifício da escolha, essa pessoa, desse jeito, com esses defeitos ou sem a pessoa.

E como se pode viver bem um relacionamento? O autor traz em seu livro que não são com discussões baseadas em textos psicológicos que se vive bem, mas sim na possibilidade de reconhecer seus sentimentos. "Ok, estou de mau humor, hoje não é um bom dia para conversar". O relacionamento funciona com base nos valores sentimentais e não na disputa de quem manda em quem, de quem está certo ou errado, de uma ou de outra opinião. Em muitos relacionamentos ocorre a competição. Relacionar-se não pode ser um combate. Relacionar-se é fazer uma aliança, um casamento, onde ambos estão dispostos a aceitar o outro e a construir uma relação e não uma guerra fria.

O amor e o poder andam juntos, mas onde há lugar para o poder não há lugar para o amor. O amor é puro, é aceitar o outro com tudo que ele traz, na sua mais complexa forma de viver e amar. E como diz C.G. Jung:

"Onde o amor impera, não há vontade de poder; e onde o poder predomina, o amor está ausente. Um é a sombra do outro".






quinta-feira, 13 de maio de 2010

Não se pode não comunicar

Inicio essa semana com uma premissa básica da comunicação: Não se pode não comunicar. No livro "A Pragmática da Comunicação Humana" o autor traz alguns axiomas da comunicação, resolvi falar de um que eu acredito ser o mais relevante para uma boa relação.

Palavras, silêncio, gestos, respiração, entonação da voz, postura, muitas são as formas que nos comunicamos com o mundo. Não existe comunicação sem comportamento e nem comportamento que não se comunica. Saber o que significa o silêncio de uma pessoa em determinada situação é indispensável para se manter uma boa relação. No entanto, não podemos generalizar, o silêncio para uns pode significar cansaço, enquanto para outros indiferença. Da mesma forma, a maneira como a pessoa irá se  relacionar com o silêncio do outro dependerá de como ela compreende essa comunicação não verbal na relação.

A comunicação quando não é clara contribui para os chamados desencontros. Nas relações humanas percebemos os desencontros em brigas, disputas, dificuldades afetivas, sexuais, entre outros. Porém, quando temos em mente que a causa é a falha na comunicação temos maior possibilidade de eliminar os ruídos e os obstáculos que comentei no texto passado:"Comunicação: uma ferramenta para as relações". 

Sendo assim, quando possuírmos o conhecimento de que o nosso maior aliado, a favor do bom convívio, é a comunicação, conseguiremos agir de maneira mais sensata e mais respeitosa com os que estão ao nosso lado. Evitaremos os recortes e tentaremos ampliar para compreender o outro e, diante dessa compreensão se colocar de maneira a acrescentar e não de desqualificar. 

O bom relacionamento acontece quando se tem uma boa comunicação.

domingo, 25 de abril de 2010

Comunicação: uma ferramenta para as relações

Essa semana resolvi discorrer sobre o tema da comunicação. Lendo os livros "Família e ..." de Cerveny, e "A pragmática da comunicação humana" de Watzlawick, fixei minha atenção nas diversas formas e na impossibilidade da não comunicação. O tempo todo estamos nos comunicando. A autora Cerveny traz um modelo de explicação de como se dá a comunicação humana. Irei expor brevemente para melhor compreendermos os axiomas que serão explorados nas próximas semanas.

Cerveny trabalha com a idéia de que um emissor envia uma mensagem a um receptor através de um canal, havendo um feedback. Quando a mensagem faz esse trajeto ela se depara com os obstáculos, que a autora identifica como sendo os valores, os preconceitos, as vivências do emissor e receptor. Esses obstáculos interferem diretamente na relação.

É necessário levar em conta o contexto e o que está acontecendo nesse todo para melhorarmos a nossa comunicação. Observar onde estamos e como devemos nos colocar, buscando, caso opte pela fala ou não, identificar como o outro (o receptor) ouviu e captou a sua mensagem. Quando não há essa disponibilidade os obstáculos de que citei acima assumem uma posição maior, o que pode atrapalhar a relação do casal e da família.

Outros obstáculos costumam agir nas relações, como ouvir o que se quer ouvir, não saber quando calar e falar, a contradição da fala e do comportamento, um mesmo fato compreendido de formas diferentes, entre outros. Se levarmos em conta que o grande desejo atual dos casais e das famílias é melhorar o diálogo, precisamos nos atentar para esses pontos para alcançar a melhora da relação.

Casais que não se comunicam de maneira acertada tendem a ter sérios problemas na relação conjugal, pois palavras não ditas assumem uma proporção maior e mais fantasiosa que o outro desconhece. Percebo que o grande desafio de uma relação é poder construir um lugar de diálogo limpo e para isso é de extrema importância considerar o outro nos mais diversos contextos.

Esse tema da comunicação é muito amplo para encerrarmos nessa semana. Vou me propor a escolher alguns axiomas para as próximas reflexões e tentarei expor algumas situações cotidianas para melhor compreendermos as nossas relações.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Senilidade e a Invisibilidade Social

Há pelo menos dois anos venho refletindo sobre o tema do idoso no Brasil. Em 2008, eu e Clarissa Magalhães escrevemos um artigo, resultado de nosso estágio em uma cidade geriátrica, com questionamentos sobre a posição social do idoso. O artigo foi intitulado "Asilamento e Morte Social," apresentado na Sociedade Brasileira de Psicologia e que me incentivou a novamente escrever sobre a posição do idoso em nossa sociedade.

A maioria dos idosos no Brasil encontram-se em condição de invisibilidade, social, política e muitas vezes familiar. Morte Social? Morte Familiar? Estão vivos, mas não possuem lugar. A visão sobre o ancião mudou, do patriarca para ... para o quê? Em muitas famílias não há espaço para o idoso. Há alguns anos atrás o idoso era tido como o patriarca, que era dotado de sabedoria. Não quero entrar no mérito do autoritarismo vivenciado por alguns sistemas familiares. Vou aqui levar em consideração apenas a posição de respeito para o membro mais velho. 

O ancião era o guia familiar, os mais novos pediam conselho e ouviam as suas orientações. Eles exerciam um papel que, após o término da sua função de produtividade, assumiam o de líderes familiares. O idoso saía do lugar de provedor, cargo este assumido por seus filhos, para ocupar o de orientador. A sabedoria nada tinha a ver com estudos, era o arquivo das experiências da vida.

Hoje, algumas famílias encontram-se cada vez mais fechadas e mais focadas na produção, aquele que não produz não tem espaço. O idoso dessa forma perde o seu lugar na família e na sociedade. No entanto, acredito que, assim como os jovens conseguiram, ao longo da história, mudar a sua posição social e familiar, tornando-se importante foco da sociedade, a senilidade conseguirá novamente o respeito.

Como? Se cada família jovem conseguir compreender que, em determinado momento precisará cuidar dos seus idosos, irá construir em seus filhos a mesma compreensão. Se conseguir sair das justificativas capitalistas, conseguir valorizar o saber, sobrepondo o valor da produção, irá re-construir o valor do idoso. Se pais, filhos e netos assimilarem o ciclo vital e conseguirem re-significar os papéis familiares, todos terão direito e lugar na sociedade.

Essa semana coloco em evidência um tema que tem aparecido com frequência no meio acadêmico, o que mostra certa inquietação dos estudiosos em compreender a forma como a terceira idade vem sendo tratada. A população está envelhecendo e precisamos modificarmos o nosso olhar, a nossa educação e o respeito por aqueles que fizeram e fazem parte da história.




sexta-feira, 9 de abril de 2010

É verdade?! Um questionamento para o olhar nas relações.

O outro. A verdade. A sua verdade. A minha verdade. A minha mais absoluta verdade. Quanta incoerência, quanta pretensão. Que verdade é essa que só eu enxergo?

Estamos entrando no campo da aceitação, do conhecer e aceitar o outro na sua legitimidade. Começo esse tema com a seguinte questão: estaremos sendo éticos na nossa conduta, no nosso olhar para o mundo das relações? Estamos prontos para ouvirmos e aceitarmos o outro? Há disponibilidade independentemente do nosso ponto de vista?

Vivemos cada vez mais isolados nas nossas verdades, são livros, crenças, opiniões públicas, condutas que nos espelham e nos causa repulsa. O mundo nos proporciona questionamentos do nosso viés analítico, basta sabermos se estamos dispostos a nos olhar e a nos questionar.

Posso estar crente na minha verdade, mas tenho o direito de desqualificar e ignorar o outro? Que relação estabeleço com o mundo quando me falta tolerância, humildade, compreensão e respeito? 

Lendo o livro "Pensamento Sistêmico: o novo paradigma da ciência" escrito por Maria José Esteves de Vasconcellos, me peguei questionando qual seria a verdadeira ética. Assim como a autora, penso que a ética é você conseguir aceitar o outro na sua legitimidade, na sua verdade, na sua visão, no seu ponto de vista e na sua conduta. 

Acredito que a nossa evolução se constrói na nossa capacidade de tolerar, ampliando nossa visão, compaixão e aceitação. Estaremos assim sendo coerentes e éticos quando aceitarmos e convivermos com o outro como ele realmente é.

O texto dessa semana tenta nos colocar em conflito. Como estamos agindo nas nossas relações pessoais e com o mundo? Estamos sendo éticos? Tolerantes? Respeitosos? Vamos refletir e até a próxima.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Consciência e Liberdade de Escolha

Lendo o livro Ponto de Mutação de Fritjof Capra me deparei com um parágrafo que diz sobre a consciência e a liberdade de escolha.
Como estamos nós, seres humanos, usando da nossa consciência e liberdade de escolha?

A evolução da consciência nos deu a possibilidade de conquistas que mudaram a vida, como Darwin com a teoria da evolução das espécies, Einstein e a teoria da relatividade, Fleming com a descoberta da penicilina. No entanto, a mesma consciência construiu destruições: a bomba de Hiroxima, o Holocausto, as guerras por ideologias religiosas.

Isso me faz pensar na nossa condição humana atual e, para tentar entendê-la, proponho uma comparação com o mundo animal. Os animais usam de uma sabedoria que nós seres humanos não temos mais. Os rituais de lutas no mundo animal se dão até que o adversário reconheça que perdeu e identifique a sua incapacidade de continuar lutando. E nós seres humanos? Vimos tantos que em lutas se matam, sendo capazes de destruir a sua própria espécie. No mundo animal encontramos claramente a cooperação para que o sistema continue em funcionamento. Com frequência vimos homens que não sabem mais o que é cooperar e se perdem no egoísmo do seu mais profundo individualismo. Grande ilusão! De que individualismo falamos? Não existe ser no mundo completamente independente, estamos todos interligados. Somos parte de um sistema e sem a consciência disso caímos na ilusão de independência, e consequentemente no gosto amargo da solidão.

A frase que tanto escuto "quero ser independente" me faz questionar, que independência se almeja? Ser livre na alma, estar de acordo com os seus princípios e valores, estar ligado a sua essência te faz um homem livre, mas nunca independente. Somos todos dependentes, estamos todos interrelacionando-se. Somos partes de um sistema social fazendo parte de um ecossistema, e por isso, não podemos e não conseguiremos nos reduzir à unidades menores. Somos o todo.

"Podemos deliberadamente alterar nosso comportamento, mudando nossas atitudes e nossos valores, a fim de readquirirmos a espiritualidade e a consciência ecológica que perdemos" (CAPRA,2006).

Temos a liberdade de escolha, mas precisamos recuperar a consciência, o contato com o mundo interno e a realidade da vida.