A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Limite, Amor, Proteção e Frustração: Qual o melhor caminho para se educar?

Ouço quase que diariamente a seguinte pergunta: como posso educar meu filho sem ser rígida como meus pais mas, sem ser omissa? Outros pais dizem: quero ser amigo do meu filho, mas não quero deixar de ser pai, isso é possível? Ou ainda: se eu conversar com ele sobre tudo ele estará protegido do mal do mundo?

Questões como essas povoam a cabeça de muitos pais e as respostas nem sempre são satisfatórias. Logicamente não terei nenhuma fórmula onde se diz qual a melhor forma de se educar uma criança mas, posso dizer que, todas elas precisam de limite, amor, proteção e frustração. 

Vivemos em uma era onde crianças de três anos vivenciam prazeres do mundo adulto precocemente, entram em contato antes de conseguirem descobrir-se como uma criança. Vejo muitas delas com toda tecnologia em mãos. Descobertas que antes eram feitas na adolescência hoje são apresentadas aos 6,7,8 anos. Aniversários de crianças que mais parecem festas de adolescentes, brinquedos que eram esperados para se terem a altura permitida são fabricados em miniatura, possibilitando a experiência da adrenalina precocemente. 

Vi outro dia um anúncio de um parque de diversões vendendo ingressos que favoreciam àqueles com dinheiro passar à frente de outras pessoas para não terem que enfrentar fila. Não muito antigamente, talvez dez anos atrás, as filas eram divertidas, faziam-se amigos e aumentava a adrenalina. O que está acontecendo com os valores? Até os parques de diversões estão ensinando a intolerância, a impaciência, a falta de respeito ao próximo, o suborno e a corrupção. 

Penso que valores significativos foram extintos e não se colocaram nada no lugar. Talvez estejamos vivendo uma fase com pouco exemplo moral e ético. Por isso, costumo dizer quando os pais me perguntam como podem educar bem seus filhos para terem no futuro bons adolescentes e adultos íntegros: deem aos seus filhos limite, amor, proteção, exemplo e frustração. 

Quando digo exemplo não quero dizer para os pais que eles precisam se mostrarem perfeitos e infalíveis, muito pelo contrário, pais infalíveis são pais que exigem demais de seus filhos, exigem além do que qualquer ser humano é capaz de fazer. Sejam para seus filhos um ser humano, com seus princípios, valores e limitações. Frustrem seus filhos, não tenham medo de serem aqueles que dão as rédeas, não se amedrontem diante de um não, façam aquilo que julgarem o melhor mas, não deixem de escutar seus filhos pois, muitas vezes eles permitem que você mude de ideia e de visão. 

Facilitem o diálogo. Esse será seu melhor aliado.



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O Pai que não mora em mim

No XIX Congresso da Associação Junguiana do Brasil, que aconteceu em Gramado, onde fui apresentar um trabalho, tive o prazer de assistir a palestra do Dr.Roberto Lehmkuhl entitulada "Um mundo sem pai" que me fez refletir e ter uma vontade grande de falar sobre o Arquétipo Paterno. Para isso, vou me basear no artigo do Dr. Roberto, disponível no site da http://www.ijrs.org.br/artigos.php?id=125 .

Para dar início a esse texto, coloco um trecho do artigo de Lehmkuhl, que diz: "A marca da experiência sob a batuta do pai é a tensão e a diferença de potencial. Se por um lado presentifica a dor, o desconforto e o conflito, por outro gera energia e vitaliza ao fazê-lo.O que a mãe provê é o preenchimento; o pai, a falta, o sentimento da falta, mas também a tecnologia e os recursos para o preenchimento. A mãe saciava a fome, o pai instrumenta o filho para, por conta própria, experienciar e, com seus próprios recursos, lutar por suprir. A prescrição vem do pai; o comportamento fica por conta do filho; o bom pai não dá o peixe, mas informa e ensina sobre técnica da pescaria".

Essa citação me fez refletir sobre a situação atual de muitos homens e mulheres que encontro em meu consultório. Quantos não conseguem se relacionar com o mundo pois lhe faltam o masculino? O masculino no sentido da luta, do ir, do ter disposição para a vida. Muitas pessoas encontram-se paralisadas, faltam-lhe o pai. O bom pai, como diz o autor, o pai que ensina a pescar, que orienta e que empurra para a vida. Tenho me deparado, principalmente com homens, que se perderam quanto ao que devem fazer. Como devem agir, e caem nos vícios para sentirem-se mais seguros de si, como se fosse no concreto buscar o pai bom, o masculino que ensina, que dá coragem e mostra o caminho. 

Situações onde a busca do prazer é algo compulsivo é uma representação forte da ausência do pai, um exemplo, são os vícios. O vício relacionado a bebidas, drogas ilícitas, a  sexualidade que, para muitas pessoas são supervalorizada e por outras tantas é visto como algo a ser temido. Pessoas que não conseguem desenvolver-se no trabalho, em atividades produtivas e criativas. O pai em nossa sociedade é função importantíssima para o desenvolvimento psíquico de qualquer pessoa. A ausência de um pai bom pode gerar indivíduos frágeis, inseguros, rígidos e sem limites. 

Como diz o autor: "Será que alguém sabe quem é seu pai? Esta mesma pergunta é feita todos os dias por homens e mulheres que não encontram sentimentos de proteção, autoridade, confiança, sabedoria e senso prático para viver suas vidas".

Quantos não vivem na insegurança e na falta de confiança em sua jornada da vida? Como coloca Moore na citação de Roberto Lehmkuhl, "Ás vezes, precisamos sentir-nos ausentes e vazios para evocarmos o pai".

A falta pode ser uma mola propulsora para evocarmos o pai. O que isso quer dizer? Muitas vezes é no sofrimento que conseguimos perceber a força que existe em nós e com isso seguir com determinação, coragem e auto-confiança para os desafios da vida, sem a necessidade de deslocar para qualquer vício a força do pai bom, do masculino. 


domingo, 18 de setembro de 2011

Ciclo Vital. A Fase Última: revisitando a vida

Esse mês trago a última fase do ciclo vital, conhecida como a Fase Última.

Curiosamente encontrei na literatura aspectos da fase última que impedem, muitas vezes, os idosos vivenciarem plenamente essa fase. Fenômenos que intensificam o papel parental onde na verdade deveria prevalecer o papel dos avós como aqueles que recebem em seu lar as suas gerações posteriores.

No entanto, quero trazer duas situações rotineiras: a primeira onde os idosos podem viver plenamente essa fase última da vida. A segunda, quando na tentativa de auxiliar seus filhos perdem a possibilidade de desfrutarem de uma vida mais leve. Na primeira situação que mencionei, os idosos conseguem fazer retrospectivas referente a forma como viveram, criaram seus filhos, os valores que levaram adiante e os que deixaram para trás. Os idosos nessa fase percebem suas limitações, conseguem reajustar a conjugalidade, são para os filhos, muitas vezes, referência e ponto de apoio.

No aspecto contrário, onde a conjugalidade vira uma prisão, a perda do cônjuge significa a libertação e a possibilidade de seguir no final da sua vida, algo mais ligado ao desejo e as expectativas. Antigamente, não como regra, as mulheres tinham como função principal serem esposas e mães, deixando para trás a mulher profissional e a mulher enquanto indivíduo. Assim, os homens ficavam com a função de prover. Muitas almas femininas foram mortas nessa época, pois deixaram de lado algo que era fundamental de sua essência. Na atualidade muitas ainda deixam sua alma de lado, não mais para cuidar mas sim, para cumprir com expectativas sociais.

A segunda situação onde os avós continuam cumprindo o papel parental, perdem a possibilidade de vivenciarem a sua fase última como gostariam, e não permitem aos filhos que vivam a fase madura lutando e resolvendo as diversidades naturais da vida. Quem nunca ouviu de seus pais: quando eu me aposentar vou aproveitar um pouco da vida? Isso passa a ser um empecilho quando, de forma individualista, os filhos contam com o apoio diário de quem não precisaria mais viver com tantas obrigações.

Como diz Ceneide Cerveny em seu livro "Visitando a família ao longo do ciclo vital": "O modelo de filho adulto na família atual, dependente dos pais, no mínimo para cuidar de seus filhos, acaba gerando uma ideia familiar de adultos que não chegaram à consecução da tarefa adulta de autonomia em relação aos pais. Assim, os avós se vêem na tarefa não prevista, educando os netos, ajudando seus filhos no difícil gerenciamento da vida moderna, do trabalho de longa jornada. Os avós se engajam com os filhos na tarefa de parentar, auxiliando como provedores, mais uma vez e como cuidadores, mais uma vez".

Sendo assim, penso que no momento da fase última é muito bom ter os avós para contar, mas contar como avós e não como pais de seus filhos. Os avós podem e merecem desfrutar da maravilhosa experiência de serem avós. Nesse momento é necessário aos pais aprenderem a cuidar de suas vidas com todos os percalços, aprender a resolver problemas sem colocar no outro a responsabilidade de educar.

domingo, 21 de agosto de 2011

Ciclo Vital. Fase Madura: redefinindo papéis.

Para falar dessa fase do ciclo vital denominada "Fase Madura" coloco como exemplo uma família com filhos saindo para a universidade, ou trabalho, pais entrando na fase última requerendo de seus filhos cuidados que a velhice necessita e o redirecionamento do olhar para o casal, não mais como pais responsáveis pela criação de seus filhos, mas sim como um casal conjugal.

Sentimentos de perda, de missão cumprida, de angústia, de alegria, estão presentes nesse momento. Considerada a fase mais difícil do ciclo pois, exige de todos os membros redefinições de papéis, é o momento em que o centro organizador desse sistema familiar se vê com muitos questionamentos. Será que eduquei da melhor forma? Será que eles vão conseguir seguir sozinhos? Como vou cuidar agora de meus pais? O que eles precisam de mim? Agora livres da responsabilidade de educar nossos filhos, será que vamos conseguir encontrar um objetivo em comum? Vamos conseguir viver nossa vida de casal?

Os pais muitas vezes sentem-se angustiados e perdidos com a saída de seus filhos de casa, sentem um misto  de vazio, desorientação, medo que misturam-se a alegria de notar que seus esforços na criação de seus filhos os tornaram autônomos e capazes de seguir suas vidas com suas próprias pernas.

A entrada de novos integrantes na família como noras, genros, netos ampliam os papéis do casal, que tornam-se sogros e avós. Muitos dos casais nesse momento olham para si e conseguem refazer planos e acordos que os permitem seguir juntos de uma forma mais madura e completa. Outros, diante de tanta mudança não se reconhecem mais como casal, o que faz cada um seguir seu caminho na vida.

Diante do casal que opta pela união, tem aí uma redefinição do papel conjugal e parental já que não são exigidos na educação, mas sim na cumplicidade e troca entre adultos. Muitos filhos se aproximam mais e tornam-se afetivos e preocupados com aqueles que lhe deram a vida. Na relação conjugal vêem nesse momento a possibilidade de voltar ao início do casamento, onde o casal volta toda a sua atenção para a relação.

O casal está livre para viver papéis de cuidado e carinho com os netos, pois a educação não é mais sua responsabilidade o que permite a eles uma relação mais livre e prazerosa. No entanto, quando esse casal tem consciência desse novo lugar, consegue estar na vida de seus filhos como porto seguro já que não precisam mais orientar. Percebem que não podem se colocar na vida familiar de seus filhos e ficam em seus lugares tornando assim amigos, podendo dividir problemas sem interferir na vida de suas crias.

Outro ponto característico dessa fase é o cuidado que o casal tem com seus pais que se aproximam da velhice. Os idosos, devido as limitações naturais da idade, acabam exigindo de seus filhos assistência nesse momento, o que em muitos casos culmina com a entrada no lar desses que lhe deram a vida e o amparo.

Considerada a fase mais complicada do ciclo vital, é o momento em que muitos casais se aproximam e conseguem no balanço final a satisfação de ver seus filhos crescidos e criados o que dá a possibilidade de aproximação conjugal e redefinições de planos futuros.




terça-feira, 19 de julho de 2011

Ciclo Vital. A fase adolescente na família

Como mencionado no texto anterior, esse mês falarei da fase adolescente. Uso o livro de Ceneide de Oliveira Cerveny e Cristina Mercadante Esper Berthoud "Visitando a família ao longo do ciclo vital".

A fase adolescente não é caracterizada puramente com a entrada dos filhos na adolescência. Cerveny  criou um conceito que qualifica todo o sistema familiar como a fase adolescente. Assim como os filhos passam da fase da infância para adolescência, os pais transitam da fase jovem adulto para a adulto maduro, o que os carcaterizam adultescentes.

O sistema familiar passa, de acordo com a autora, pelo alinhamento de crises evolutivas, que são as transições citadas acima somadas à terceira geração, ou seja, os avós entrando na velhice. Nesse período, a família passa por dois processos, o que Berthoud diz ser: reajustando as lentes: reconfigurando as relações pais/filhos e vivendo novo ritmo na vida em família.

No momento em que surge a necessidade de reconfigurar as relações,  pode gerar aos pais sentimentos de decepção, dúvida e culpa. Com a entrada dos filhos nessa nova fase é esperado dos pais que revejam os padrões de educação que receberam de suas famílias de origem e avaliem qual a melhor forma de educá-los. Algumas estratégias que podem ser usadas são: adaptando-se ao filho, compartilhando, depositando confiança, buscando orientação, dando limites e dialogando.

O adaptar-se ao filho é poder atualizar-se aos novos modelos de educação. Para isso, se os pais conseguirem junto ao adolescente rever seus padrões, podem através da convivência com os amigos, cuidando de longe e sem pânico, compartilhar as novas experiências, o que permite aos pais depositarem confiança em seus filhos e orientá-los, dar limite e, acima de tudo, conseguir o diálogo saudável. O diálogo passa a ser, ao meu ver, a fonte de alimento dessa relação, pois dá aos pais subsídios para orientação e conhecimento desse novo adolescente.

No entanto, é de extrema importância que os pais estejam abertos a repensarem seus padrões de educação e reavaliarem a forma como podem cuidar desses novos filhos. Assim facilitará, consequentemente, a passagem para a fase do adulto maduro, visto que, adquiriram a condição de reorganizarem suas vidas. Para o casal, é de muita importância que consiga o diálogo entre si pois, os filhos necessitarão de novos pais, sendo necessário o refazimento de seus acordos.

No processo vivendo novo ritmo na vida em família, vai depender de como o casal vivenciou as fases anteriores, a de namoro e a fase de aquisição - texto anterior. Se foram um casal flexível, provavelmente passarão por essa etapa de forma mais tranquila, uma vez que conseguiram em outros momentos refazer seus acordos. Caso contrário, poderão passar por uma crise conjugal, já que terão maiores dificuldades de entrarem em um acordo, ainda mais se um dos cônjuges for excessivamente flexível e o outro rígido.

Sendo assim, finalizo o texto dizendo da importância do diálogo e do respeito às diferenças, pois, tanto os filhos quanto os pais entrarão em um novo lugar. A família assumirá novos papéis,  padrões de comportamento e novas visões em um mundo onde as novidades são dinâmicas e exigem do indivíduo habilidade para pensar e adaptar-se.

Até a próxima fase!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ciclo Vital. Construindo a vida a dois

Muitas pessoas chegam ao consultório, seja para uma terapia individual, casal ou familiar,com queixas que parecem sem saída. Chegam com visões e comportamentos cristalizados que intensificam a dor. Olham muitas vezes para a sua situação e desanimam com a falta de perspectiva. 

De acordo com Ceneide Maria de Oliveira Cerveny, em seus livros: "Família e ciclo vital" e "Visitando a família ao longo do ciclo vital", nós vivenciamos quatro fases do ciclo vital, que são: Fase de Aquisição, Fase Adolescente, Fase Madura e Fase Última. Esse mês falarei sobre a Fase de Aquisição e sua atuação na vida das pessoas.

A Fase de Aquisição é conhecida como o momento de construção do núcleo familiar. Pode-se perguntar: e as pessoas que se separam e casaram novamente? Esse novo casal (relacionamento entre duas pessoas), nesse recasamento, inicia a relação pela fase de aquisição. Independente da idade da pessoa, a cada novo relacionamento ela passará por novas experiências com o novo parceiro, sendo o momento da união, da construção da vida a dois e a parentalidade. 

A união é o momento em que o casal começa a se conhecer, a perceber suas semelhanças e diferenças, e precisam se adaptar a elas. Vão adquirir juntos os bens materiais?  Tem filhos de outros relacionamentos? Como será a convivência? Serão seus filhos e meus filhos? Serão nossos filhos? Esse é o momento de assumir responsabilidades, planejar o futuro do casal, negocia e renegociar.  

Na etapa de construção da vida a dois, o casal começa a construir a sua família, sua cumplicidade. Passam a conviver com os problemas e se deparam com diversos pontos: como será a relação do casal com suas famílias de origem, e seus amigos? E a vida social e individual? Como vão lidar com o dinheiro? Quem vai pagar a conta? Teremos conta conjunta? Vamos dividir as tarefas domésticas? Poderemos sair com os amigos? Teremos filhos? Quantos? E a educação que daremos à eles? Como será nossa individualidade? Chega o momento de avaliar os valores que vieram de suas famílias de origem, os individuais e quais os que permanecerão nessa nova família. Devem juntos estabelecer suas fronteiras e decidir como farão isso.

São esses acordos necessários que muitas vezes não são percebidos ou feitos de forma clara, o que consequentemente traz ruídos para a relação. Cada um espera que o outro aja como ele imagina e esquece de falar ao parceiro o que de fato espera dessa relação. Isso, além de gerar grandes conflitos, são muitas vezes motivos definitivos de separação, o que acontece frequentemente com muitos casais. Quantos relacionamentos terminam em menos de um ano? Provavelmente não conseguiram passar por essa fase do diálogo e dos acordos. 

Quando os acordos são feitos e  o casal opta por ter o primeiro filho, entra na família mais um membro que exigirá a reorganização de seus acordos. Quem cuidará? Colocarão em uma creche? Quem vai ajudar? Qual é a função de cada um dos parceiros? Esse filho será gerado? Será adotado? Um dos cônjuges ficará em casa para cuidar da criança? Durante quanto tempo? Como vão reorganizar o orçamento doméstico? Como será a vida do casal com a criança? E entre eles? A privacidade, acontecerá de que forma? Observem o surgimento de novas questões na etapa de parentalidade. 

Essas situações são extremamente normais na vida das pessoas. As dúvidas surgem e precisam ser conversadas no plano familiar. Comumente os casais não localizam o problema, o que dificulta o diálogo claro. Sendo assim, surge a necessidade de uma terceira pessoa para ajudar a perceber o conflito e reorganizar essa nova família. Dessa forma, evita-se a culpabilização que o casal costuma fazer para tentar achar o meio de aliviar o problema.  

É importante perceber o quanto querem esse relacionamento, o quanto estão dispostos a se ajustarem para criarem juntos uma nova convivência. Não esquecendo que são dois jeitos diferentes, dois modos de pensar, sentir, sonhar que podem divergir. O problema não está nas maneiras individuais, mas sim na impossibilidade de criar um terceiro jeito, o jeito do casal. 

Um relacionamento só dá certo quando "o nosso" jeito prevalece ao meu e ao seu jeito. 

Na próxima publicação falarei sobre a Fase Adolescente. 


terça-feira, 17 de maio de 2011

O Desejo de Férias

No artigo desse mês trago para reflexão o mito de Sísifo. Sísifo retrata bem a rotina diária do trabalho estafante e que muitas vezes fica totalmente sem sentido, vira uma reprodução que  leva a um esgotamento e um profundo desejo de férias. 

Sísifo foi condenado pelos deuses a iniciar um trabalho inútil e sem nenhuma esperança. A todo momento ele empurrava uma grande pedra até o topo da montanha. Quando chegava ao topo soltava-a. A pedra rolava até a sua base e novamente Sísifo a pegava e levava até o topo. 

Não estaríamos nós fazendo da nossa rotina um momento de grande desgaste? Como utilizamos nosso tempo livre? E a profissão, tem o mesmo sentido inicial?

No livro "Ao encontro da sombra" - o texto de Chellis Glendinning - Quando a tecnologia fere - o autor traz a tecnologia quando vira uma ameaça à saúde. O último acontecimento no Japão da usina de Fukushima mostra claramente o quanto o uso de uma tecnologia pode, unida um desastre natural, trazer um grande problema à saúde. Indo além, eu questiono, o quanto a tecnologia pode contribuir para o estresse? Quantas empresas renomadas não dão aos seus funcionários celulares e computadores de última geração com o discurso de proporcionarem melhores condições de trabalho? Quantos desses funcionários não trabalham com seus belos computadores em seus momentos de descanso?

Não estou indo contra a tecnologia, muito pelo contrário, ela é de grande valia, importantíssima para o desenvolvimento da humanidade, no entanto, o uso excessivo pode gerar em muitas pessoas uma ameaça a vida e a saúde. Isso quando não gera um problema para toda uma nação. 

O problema está quando a produtividade diminui? Não! O problema vem quando a insatisfação toma conta, quando o sentimento de exploração domina a rotina e o desejo de férias indeterminadas aparece fortemente. Muitas pessoas adoecem para poder sair de férias sem culpa, pois o descanso é visto hoje, para muitas pessoas, como perda de tempo. 

Vida com saúde é vida em equilíbrio, é trabalho, produção e descanso. As férias podem ser vistas como momento de prazer ou como um desejo de libertação, basta olhar para forma como você conduz sua vida diária.  

Vamos tirar Sísifo de nós para termos os nossos dias de trabalho satisfatório e os dias de descanso prazerosos. 








sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sexualidade no casamento

O casamento passou por mudanças significativas nos últimos anos. De vínculo financeiro para vínculo afetivo, do sexo depois do matrimônio para sexo antes da consagração, da liberdade de escolha para a vivência de escolhas.

Dentre muitos temas relacionados ao casamento, dos quais já postei aqui, trago esse mês o sexo para refletirmos. Usei dois livros, um de alcance direto de muitas pessoas e outro de conteúdo teórico voltado à psicologia, para explicar tanta mudança na vida sexual de muitos casais.

O romance de Elizabeth Gilbert, "Comprometida", traz a história da origem do casamento e como o casamento é sentido e vivido em nossa sociedade atual. Para a autora nascemos carregados de expectativas de nossos pais que nos dizem desde pequenos o quanto somos especiais, ou seja, diferentes do filho do vizinho. Casamos com a ideia de encontrar a felicidade e projetamos no parceiro nossos ideais e sonhos para que ele magicamente os descubra e realize-os, afinal somos alguém especial que ele não pode nem sonhar em perder. 

No livro de Esther Perel, "Sexo no cativeiro", a autora traz a relação sexual como algo que saiu da clandestinidade, do proibido, para algo liberal e muitas vezes sem graça. O casamento trouxe a tão esperada e desejada intimidade e afastou o desejo, o mistério. Trouxe o amor, o carinho, o aconchego, mas afastou a paixão, a vontade louca de estar com aquele que um dia despertou um sentimento especial, diferente o suficiente para desejar senti-lo por toda vida. Ela questiona por que o sexo tem se tornado chato e sem graça em casais que afirmam se amar tanto?

Esse tema do sexo tem sido frequentemente discutido em várias rodas de conversas, palestras, workshops e penso que algo na liberação sexual, na intimidade e na necessidade do amor tenha refletido na monotonia sexual de vários casais. Alguns resolvem trabalhar isso buscando satisfazer esse desejo fora da relação, fazem e destroem aquilo que um dia foi desejo soberano, o companheirismo. Outros buscam incessantemente dialogar e tentar compreender o que mudou, o que fez aquele fogo todo virar brasa. 

O estresse tem sido um grande inimigo da sexualidade, companheiro presente na vida de muitos casais. Além do estresse, a intimidade sem individualidade mistura e afasta. Há uma necessidade do casal aprender a se diferenciar, a manter o amor, o companheirismo, a igualdade, mas trazer a individualidade. A particularidade e o mistério trazem como parceiro número um o desejo. Aprender a ter vida conjugal e individual faz do sexo algo mais próximo e prazeroso, intimidade com indiferenciação faz o sexo ser morno e escasso. 

Sexo bom no casamento não é sexo frequente, diário, é sexo com amor e desejo. 

   

terça-feira, 1 de março de 2011

Pais em crise, filhos em crise?

Quantas famílias não entram em crise e percebem em seus filhos alguma mudança de comportamento? Muitos casais que entram no processo de separação, ou que ainda nem conversaram sobre o assunto, mas que pensam sobre, são impactados com a mudança de comportamento de suas crianças.

Como isso acontece? Muitos adultos devem se lembrar de suas infâncias, o quanto sabiam quando determinado comportamento do pai ou da mãe geraria uma briga, uma discussão. Essa sensação anterior já faz a criança se proteger, algumas se escondem, outras adoecem, outras se comportam de alguma forma diferente do convencional para disfocar a atenção de um dos pais, evitando assim o conflito entre o casal.

Sendo assim, muitas acabam realmante adoecendo fisicamente, ou ocorre um adoecimento social. Começam a apresentar problemas relacionais, educacionais, comportamentais e que de alguma forma preocupam os pais, que muitas vezes se unem para ajudar seu filho. Isso pode gerar mais angústia na criança, pois ela terá a crença de que doente manterá a sua família unida. Essa família passa a funcionar patologicamente, necessitanto assim da ajuda de um profissional para orientá-los como lidar com o filho e ajudar a criança a elaborar a crise familiar. No caso de uma separação, entender que é o subsisistema conjugal que irá se separar, mas que o subsistema parental se manterá.

Uma crise é sempre algo difícil de lidar, pois envolve sentimentos diversos entre o casal e isso se reflete para toda a família, ou seja, os filhos percebem e tentam a todo custo trazer a harmonia antes vivenciada.

Uma forma de apresentar o problema para seus filhos é dizer a verdade dentro dos limites da criança, ou seja, dentro dos limites que a idade e a curiosidade de seu filho lhe mostrar. Dizer que o papai e a mamãe vão continuar amando e cuidando dele, mas que cada um vai viver em uma casa diferente e que sempre estarão perto, apoiando e participando de sua vida. Se a criança ficar com a mãe, deixar claro que o papai irá vê-la com a frequência x. Essa frequência será determinada pelo casal, ou pelo juíz da vara de família. É de extrema importância que a criança saiba que discussões, discordâncias fazem parte da vida, mas que não precisam conviver com alguém onde as brigas imperam. 

No entanto, o mais importante para que a crise entre os pais não vire uma crise com os filhos é poder proporcionar um ambiente de acolhimento, seguraça e confiança na relação familiar.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O velho e o novo: uma visão psicológica

Resolvi trazer um tema muito comum na atualidade. Busquei nas mais diversas literaturas construir um olhar para a sociedade de hoje. Essa sociedade que saiu da época do autoritarismo para seu oposto. Na psicologia estamos falando da relação arquetípica velho-criança, senex-puer. A dinâmica relacional senex- puer pode ser positiva quando a criatividade, o impulso do puer entra em equilíbrio com a sensatez do senex. O problema é quando aspectos negativos de ambos dominam a estrutura psíquica e trazem desequilíbrio em nossas vidas. É importante ressaltar que, a relação arquetípica do puer e do senex não necessariamente tem a ver com a idade cronológica.

Como o senex, o velho em nós, pode interferir negativamente em nossas vidas? O senex em seu aspecto negativo torna a pessoa rígida, intransigente, autoritária, controladora. No livro "Puer e Senex: dinâmicas relacionais" de Dulcinéia da Mata Ribeiro Monteiro, a autora traz a discussão com diversos autores sobre o arquétipo senex-puer. No texto de Carlos Bernardi, o senex, em sua faceta negativa, tem grande dificuldade com o novo, podendo se tornar pouco hospitaleiro com a diferença. O senex se torna rígido e dá pouca chance ao novo.

No entanto, há aspectos positivos e importantes do senex que na relação dinâmica com o puer é imprescinsível nos dias de hoje. O autor traz a seguinte colocação: "A rigidez do senex pode servir como ponto de resistência contra mudanças que não geram nenhum sentido e são vividas mais como perdas do que como ganhos". Vivemos em um tempo onde as mudanças sem sentido acontecem a todo momento, perdendo muitas vezes valores importantes para o equilíbrio do ser humano. Sendo assim, a resistência, nesse sentido, ajuda a manter certos valores como por exemplo, o respeito ao próximo.

O lado puer, a criança em nós, é  muito falado na atualidade. Quantas pessoas buscam incansavelmente manter a sua juventude a todo custo? Trago agora aspectos negativos do puer e como isso interfere em nossas vidas. Nesse ponto, o puer não se liga a realidade, percebe-se que o momento certo nunca chega. Em sua faceta negativa, é apressado, inconsequente, sem limite, irresponsável, e vive na eterna juventude. Como traz o autor, quem não conhece pessoas que sob os efeitos dos vícios, seja o álcool, as drogas ilícitas, as compulsões que aliado a irresponsabildiade gera grande sofrimento?

No entanto, o puer também traz seus aspectos positivos, que são aquele que permitem o novo, a criatividade, a possibilidade, o entusiasmo e a energia. Carlos Bernardi diz, quem não conhece alguém que jogou tudo para o alto numa atitude aparentemente irresponsável, mas que jusrtamente por essa irresponsabilidade sua vida tomou outra direção?

Esse lado jovial do puer dá a possiblidade da trasngressão que aliada a responsabilidade do senex permite que a pessoa progrida, se desenvolva. A relação dinâmica do senex-puer é saudável e um possibilitador de mudanças produtivas. 

No texto desse mês escolhi trazer algo que não podemos pensar como estático, mas sim,  dinâmico que nos possibilita refletir sobre nossas condutas e buscar sempre o equilíbrio dessa relação senex-puer em nossas vidas.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Com que roupa eu vou?

- Olá! Prazer, sou psicóloga.
- Olá! Prazer, sou médica.
- Olá! Prazer, sou engenheira.
- Olá! Prazer, sou esteticista.
- Olá! Prazer, sou mãe da Vitória e do Leonardo.
- Olá! Prazer, sou professora e mãe do Giovani.

Quantas pessoas não se apresentam assim?

Lendo um texto de Edward C. Whitmont, intitulado Persona: Máscara que usamos para o jogo da vida, do livro Espelhos do Self encontrei esse trecho que reproduzo abaixo:

" (...) Temos de nos tornar conscientes de nós mesmos enquanto indivíduos separados das exigências externas feitas em relação a nós, temos de desenvolver um senso de responsabilidade e uma capacidade de julgamento não necessariamente idênticas aos padrões e expectativas externas e coletivas, embora, é claro, esses padrões devam receber a devida atenção. Temos de descobrir que usamos nossas vestimentas representacionais para proteção e aparência, mas que também podemos nos trocar e vestir algo mas confortável quando é apropriado, e que podemos ficar nus em outros momentos. Se as nossas vestes grudam em nós ou parecem substituir a nossa pele é bem provável que nos tornemos doentes".

O que o autor quer dizer com esse trecho? Que há um problema quando a pessoa deixa de ser o que é para ser uma profissão, a ocupação na sociedade, o papel e a posição social. Mas nós não somos tudo isso? Sim, somos, o problema passa a existir quando a pessoa só é o que faz, só é aquilo que tem como posição e função social.

Edward Whitmont diz que nós podemos ser tudo isso e ser nós mesmos, basta conseguir fazer uma diferenciação daquilo que se faz, da posição que se ocupa e daquilo que é a alma (o que é seu). Você pode trabalhar e ser o profissional durante todo o período que o trabalho exigir, o que é fundamental para o desenvolvimento do indivíduo, mas é de extrema importância saber ser o que realmente você é, a alma, nos diversos momentos e episódios de suas vidas.

Conhecer a si mesmo é algo fundamental para saber diferenciar entre aquilo que se é pelos padrões e expectativas externas, e aquilo que pode ser, ou seja, vestir a sua roupa mais confortável. É saber que roupa usar e em que momento usar. A roupa é uma analogia dos nossos comportamentos sociais. Se a Beatriz só sabe ser mãe do Giovani e ser professora, ela mata as possibilidades de ser a Beatriz. Se a Léa só sabe ser esteticista ela mata as possibilidades diversas de ser a Léa.

Comecemos o ano de 2011 com a abertura de um novo conhecimento, o conhecer a si mesmo na sua mais completa diversidade. Conhecer a si mesmo na sua profissão, função familiar, na suas ausências, limitações, nos prazeres e principalmente nas muitas possibilidades.