Esse mês gostaria de escrever sobre o amor. Não do amor que diz ser cuidadoso, preocupado, que diz que é importante estarmos juntos. Não do amor que espalha aos quatro ventos "eu preciso de você para ser feliz", "você é tudo para mim e eu não vivo sem você".
Quero falar do amor livre, que permite a escolha. Aquele que possibilita ser o encontro daqueles que querem se amar, ou de mãe para filho que deixa partir, de pai para filha que a deixa livre para escolher. Esse mês quero falar do verdadeiro amor, o amor desnecessário.
Amar alguém é poder escolher estar ao lado dessa pessoa. Amar é poder estar na relação genuinamente, simplesmente por amor, por querer estar perto, por desejo e não por necessidade e dependência. Precisar do outro é ser cativo de um sentimento possessivo, querer estar é poder amar sem limitação, livre de culpa e de obrigação.
Ouvi de uma colega de trabalho, Dery Leão, a seguinte frase: "Sabemos que tivemos uma boa mãe quando ela se torna desnecessária em nossas vidas". Sim, podemos ter uma relação de amor por escolha, por querer estar perto, livre de obrigações, livre de deveres, simplesmente porque amamos e nos importamos com aquele ser. O amor de mãe para filho, muitas vezes é incondicional, é o amor que permite que o outro sinta e faça o que quiser pois, nada disso abalará tal sentimento. Amor de mãe que exige, não é amor, é dever, é obrigação, é o amor que espera gratidão, recompensa. O amor desnecessário é o amor que permite sentir todos os sentimentos, inclusive os negativos, pois confia que todo sentimento ruim passará e o que permanecerá é o bem estar daquela relação.
Amar o outro na relação conjugal não é diferente. O amor conjugal também é poder amar pelo que se é, não pelo que eu desejo que o outro seja. Amar por escolha, estar na relação por desejo, por felicidade e não necessidade. Amar e desejar que o outro seja feliz, mesmo que para isso ele precise partir. Amar sem esperar ser correspondido nas expectativas, é permitir a liberdade, é dar ao outro a possibilidade de escolha.
Sabiamente o sociólogo Zygmunt Baumann diz em seu livro, O amor líquido, que hoje as relações são mesmo líquidas, não há como pegá-las. Escorrem pelas mãos e não há garantia alguma de que a pessoa que está ao seu lado permanecerá com você. Isso ocorre justamente porque o outro é alimentado pela mesma ideia de que "eu mereço ser feliz e se você não consegue me trazer tudo aquilo que preciso, eu o troco". Ou seja, é do outro a responsabilidade de adivinhar e trazer a felicidade que mereço.
Será que essa ideia tão presente nos dias de hoje é de fato amor? Não seria esse o momento para desejar ser desnecessário para o outro? Se amar é escolha, talvez seja a hora de liberar o outro e a si mesmo para escolher e ser escolhido simplesmente por amor.