A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A medicalização compulsiva e a alienação da vida.


Hoje me deparei com um texto e ao refletir sobre ele decidi que esse seria o tema: A medicalização compulsiva e a alienação da vida. 

Ao ler "O poder da psiquiatria", reportagem de capa da revista Cult, me deparei com um dado alarmante ao número crescente de patologias no novo DSM 5. DSM é um Manual de Diagnósticos e Estatísticas das Perturbações Mentais. Bom, de acordo com a reportagem de Vladimir Saflate, professor livre docente do departamento de Filosofia da USP, houve um aumento significativo de patologias mentais. O número passou de 265 do DSM 3 para 450 nessa nova edição. Esse aumento assustador me parece denunciar uma medicina mercadológica. 

"De fato, com modificações, como as que diminuem o luto patológico de dois meses para 15 dias ou que cria categorias bisonhas como o transtorno disruptivo de desregulação de humor, o vício comportamental (behavioral addiction) ou o transtorno generalizado de ansiedade, dificilmente alguém que passa por conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica" (Revista Cult, Out. 2013 Ed. 184)

A necessidade de se abafar todo e qualquer sofrimento e patologizar a vida tem contaminado grande parte da população. Esse cenário é recorrente, muitas pessoas procuram a terapia e chegam com diagnóstico pronto, seja ele, pesquisado na internet ou numa prescrição psiquiátrica. Um trabalho árduo para nós psicólogos. Trabalhar a frustração, a perda, o luto, as dores da vida e conseguir identificar, de maneira clara, casos que necessitam de medicação ou não, ficou um pouco mais complicado. A sociedade, a indústria farmacêutica, a mídia contribui para a manutenção de uma alienação dos enfrentamentos naturais da vida. Para qualquer desconforto há um fórmula capaz de amenizar qualquer dor. 

Há uma necessidade dos pacientes para o enquadramento em modelos classificatórios de patologias mentais. Mal conseguem pensar, à serviço do que está aquela dor? Ou ainda, caso a doença exista, à serviço do que ela está? Não nego a existência das patologias, somente me incomodo com o excesso de classificações e  diagnósticos precoces. 

Fico a pensar, o que leva tanta gente a buscar um medicamento para apaziguar os desconfortos da vida? Será a intolerância à dor ou a escolha por não olhar a si mesmo? Qual o significado de ser ou estar classificado em uma patologia mental? 

A busca do auto conhecimento, a meu ver, é fundamental para um olhar crítico e perspicaz diante do sofrimento. Saber se de fato os sintomas aparentes são consequências de um processo natural ou se mostram um caráter patológico é fundamental para evitar qualquer enquadramento. Consultar um profissional é sempre a melhor opção. A busca de profissionais capazes de olhar além do sintoma é uma possível saída para evitar a medicalização compulsiva. 



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

É possível caminharmos juntos? Individualidade x Conjugalidade na realidade do casamento.

Esse mês trago o tema da individualidade e conjugalidade nas relações de casamento. Será possível manter o individual e construir o conjugal sem afetar a relação? Seria essa uma utopia do casamento?

A teoria proposta por Philippe Caillé, um e um são três, é descrita no artigo de Terezinha Féres-Carneiro "Casamento contemporâneo: o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade"

"Cada casal cria seu modelo único de ser casal, que ele chama de "absoluto do casal", que define a existência conjugal e determina seus limites. A sua definição de casal  contém portanto os dois parceiros e seu "modelo único", seu absoluto". 

Em meu trabalho com terapia casal tenho notado, com certa frequência, o desejo da construção da conjugalidade, no entanto, há certa incompatibilidade na ideia do conjugal. O ceder está incluso, no entanto, este não pode ser o único recurso, já que, pode tornar-se a anulação da individualidade. 

A autonomia individual é fundamental na construção da vida a dois. Ficar somente no um ou no três pode resultar no fracasso da manutenção saudável da relação. A linha é tênue quando se trata em respeitar o individual pois, esta pode ser a munição contra o casamento. Aceitar e apoiar a individualidade é parte integrante para a construção do caminho único, o casamento. 

Ideias como fazer uma caminhada, um curso, uma reunião com os amigos devem ser respeitadas, no entanto, quando um dos parceiros começa a exigir respeito em suas escolhas é o momento de se parar para pensar. Por que estou tendo que pedir respeito? Que respeito é esse que desejo? Estamos construindo uma relação de desejo ou de dependência? Estamos no casamento porque queremos ou porque precisamos? Questões como essas são recorrentes e podem ser um indicador da necessidade de abrir novos olhares e principalmente acordos sobre como devem levar a união. 

A conjugalidade deve ser preservada, assim como a individualidade. São duas pessoas construindo uma vida. A base de qualquer relacionamento deve estar apoiada em comunhões de vidas. É preciso construir um lugar confortável de planos, objetivos onde reforçam o desejo e a escolha pelo casamento. Assim, a individualidade deixa de ser uma ameaça e passa a ser parte integrante e necessária no casamento.

Casar é unir um e um e gerar o três, o casamento. Esse modelo único e verdadeiro acontece quando ambos caminham na mesma direção.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A transgeracionalidade e os impactos na vida conjugal


O relacionamento contemporâneo, diferentemente do amor romântico, carrega a possibilidade de auto-reflexão, diálogos sobre os sentimentos, a maneira de agir, os laços de união e com isso a constituição do indivídual e do conjugal. Nesse artigo, partindo da ideia do novo modelo relacional, tratarei sobre a interferência da transgeracionalidade, ou seja, da herança familiar na construção do casamento. 

Na constituição do indivíduo todo aprendizado consciente e inconsciente se dá primeiramente na família de origem, no entanto, a família traz consigo toda uma herança anterior que interfere direta e indiretamente na formação de cada ser.

A família contemporânea traz uma nova ideia de relacionamento, onde coloca o individual, muitas vezes, acima do conjugal o que pode se tornar um problema em algumas relações. Primeiramente é necessário explicar os impactos transgeracionais na vida do casal para posteriormente falar sobre o dilema individualidade e conjugalidade, o qual será publicado no próximo mês. 

De acordo com Féres-Carneiro, Ponciano e Magalhães em a "Família em Movimento" a elaboração da herança familiar é fundamental para a construção do presente e futuro da relação. 

Casar é trazer toda a herança familiar, é encarnar o modelo de casamento vivenciado pelos pais, tendo o peso positivo ou não. O casamento é um processo constante de negociação, já que a constituição individual se deu por todo aprendizado anterior. Há uma necessidade primeira de acordar quais os modelos herdados que serão mantidos e aqueles que serão transformados, entendendo que a modernidade exige da nova família um repensar sobre modelos e valores anteriores.

No momento em que o casal sai da cegueira da luta por um modelo repetitivo, abrem-se as portas para a construção e organização dessa nova família. Para isso, é importante compreender onde acontece a ligação genuína na relação. Situações como a espiritualidade, o social, os planos e projetos para o futuro, podem ser canais de conexão única. 

Os maiores impasses sofridos devido a herança transgeracional se referem a engessamento de modelos aprendidos, ideias como: a mulher deve ser independente, o homem é o responsável por manter a vida financeira, é importante que haja ajuda masculina na organização da casa, a mulher precisa cuidar de si e do lar, entre outras inúmeras exigências, mostra a manutenção de uma cultura social e familiar que muitas vezes impede novos acordos. A ideia constante de ajuda masculina é um dos maiores obstáculos tanto para o homem como para a mulher, já que, ainda não foi internalizada a noção de igualdade nas responsabilidades da vida a dois. 

Esses exemplos são ilustrações de uma variável enorme de possíveis situações vividas a dois, dificilmente conseguiria abordar a maioria. No entanto, dissociar o que foi aprendido para acordar a maneira de viver a dois é fundamental para prosseguir em uma união mais autêntica. Discursos maternos e paternos são, muitas vezes, determinantes na maneira de agir do indivíduo, o que não cabe em uma relação.

Como disse acima, após a ampliação do olhar sobre o aprendido e a conexão dos cônjuges é mais fácil a ligação e a aceitação do que deverá ser transformado e aquilo que se manterá como herança das famílias de origem. Cada casal, cada história individual e a construção do novo é além de importante, um combustível renovador e de união para o casamento. Essa re-significação da transgeracionalidade além da autonomia conjugal traz a segurança de estar no caminho certo, o caminho de responsabilidade dos dois e não a permanência de modelos individuais que precisam estar em constante luta para mostrar a sua veracidade.  

Enfim, poder escolher quais aspectos herdados serão mantidos e quais serão abandonados é o início da construção de um casamento. Para finalizar, de acordo com as autoras acima:

"A tarefa do sujeito assim como da família e do casal é construir, organizar e transformar suas heranças".





quinta-feira, 9 de maio de 2013

Somos íntimos?

Intimidade é um assunto que parece, num primeiro momento, algo tranquilo de se definir. Muitas pessoas diriam que ser íntimo é poder chegar em casa e saber o que aconteceu no dia do parceiro, é poder entrar em seu mundo tendo livre acesso, é saber ouvir e saber falar, no entanto, a proximidade muita vezes vira coerção e com isso consequências inevitáveis aparecem sem pedir licença. 

A base de um bom relacionamento, seja ele qual for, é saber que somos diferentes uns dos outros e que isso não nos torna melhor ou pior, mas sim, diversos. Dentro de uma relação é comum que um tenha uma forma de se comunicar diferente do outro o que pode, ou não, gerar ruídos na convivência. Diante disso como funcionará a intimidade do casal? Ela realmente existe ou está na base da intimidação e coerção?

Exigir do outro de forma sutil e delicada que lhe conte tudo, comparar a forma de agir com a do parceiro faz com que as diferenças tornem-se obstáculos intransponíveis. As diferenças podem ser assimiladas na relação de forma que o valor do outro se sobressaia e para isso é preciso mudar o jeito de olhar para si e para a pessoa amada. 

A intimidade é muitas vezes confundida, e o que se vê é a necessidade de controlar a vida do parceiro. 

- "Você tem que me ouvir."
- "Não vai dizer que me ama?"
- "Eu te conto tudo."

São possíveis evidências de coerção, invasão e necessidade de reciprocidade onde a proximidade deveria ser natural na relação de um casal. 

A terapeuta de casal Esther Perel retrata muito bem essa intimidade disfarçada em controle:

"Quando o impulso de compartilhar vira obrigatório, quando os limites pessoais já não são mais respeitados, quando só se conhece o espaço compartilhado com o companheiro, e o espaço privado é negado, a fusão substitui a intimidade e a posse coopta o amor. É o beijo da morte para o sexo. Destituída de enigma, a intimidade torna-se cruel quando exclui qualquer possibilidade de descoberta. Onde nada resta a esconder, nada resta a procurar".

A imposição mostra que o terceiro lugar, o casamento, não existe nessa união. Eu sou assim, você é de outra forma, e em cada momento um cede é o maior equívoco de que a relação está em bom funcionamento.

A necessidade de se ter o controle da vida do outro tendo como base a falsa ideia de interesse e intimidade, mata a possibilidade de existência do individual e assim consequentemente é o meu olhar sobre o meu parceiro que faz dele aquilo que eu vejo e exijo que ele seja. Como haverá amor, desejo em algo que se tem pleno domínio? Não há desejo e intimidade quando se mata a possibilidade do outro existir como um ser em constante mudança. 

Enfim, ter a certeza do outro é ter em mãos o atestado de óbito da relação.

domingo, 31 de março de 2013

O leito de Procusto e a mutilação da alma


"Quem não vive o próprio animal trata os outros humanos como animais" - C.G. Jung.

A todo momento somos influenciados em nossa maneira de sentir, pensar e estar no mundo. Somos moldados desde pequenos por ideias de nossos pais, depois pela influência de nossos professores e assim pela sociedade em que vivemos. Logicamente estamos em um mundo onde as regras são necessárias e fundamentais para o funcionamento do sistema, no entanto, que regras nos mutilam a alma?

Ser o que o outro espera de nós é muitas vezes autoagressão, principalmente quando não conseguimos mais nos encontrar no meio de tantos "deveria". Vejo com frequência crianças, adolescentes, adultos que dizem estar entediados. O que significa tédio? Pensar sobre o tédio me fez entrar em contato com uma realidade vivida por pessoas distantes do que são e muito próximas do que esperam que sejam. Estar entediado é estar sem estímulo, é não conseguir vislumbrar nada atraente, ou seja, é não encontrar o prazer em nenhuma atividade. Muitas vezes é vista como perda de tempo, até mesmo pelo fato de não se permitirem o ócio, ou então, pela cegueira da alma. 

Na mitologia grega o mito do leito de Procusto é vivenciado por muitas pessoas na atualidade e tal mito reflete, a meu ver, o tédio, a falta de autenticidade e a ausência de contato com o seu lado inato. O mito conta que os homens em viagem de Mégara a Atenas eram obrigados e deitarem no leito de Procusto. Era esperado que o homem tivesse o tamanho exato do leito, caso contrário sofreria a interferência, sendo esta, a amputação ou o esticamento de suas pernas. Passar pelo leito de Procusto era se enquadrar no esperado. O que é esperado está fora e com isso muitos valores internos são desprezados para que encaixem nos valores em destaque em determinada época social. 

Luiz Felipe Pondé usa um termo que acho interessante colocar aqui: a promiscuidade antropológica. Por esse termo o filósofo diz sobre  o excesso de cultura, de pessoas, ideias, informações, tribos, grupos, sociedades, que podem gerar ódio em outras tantas pessoas por simplesmente representar o desconhecido que gera medo. Mas que desconhecido é esse que amedronta? Não seria o nosso lado sombrio? 

Os nossos monstros que encontram-se incosncientes e projetados no mundo, em pessoas, ideias, organizações, instituições, grupos, modo de vida, etc. são, a meu ver, reflexo do enquadramento social. O distanciar do si-mesmo gera uma aproximação cega de modelos de vida incoerentes, incompatíveis e que geram desarmonia com o nosso traço mais verdadeiro. 

Como pais temos que nos atentar para  não contribuirmos com a mutilação dos nossos filhos pelos ideiais vendidos pela sociedade, por exemplo: um filho homem ligado em música, que canta e dança pode ser autorizado em seu dom ou então aconselhado a ter tal comportamento apenas em seu quarto já que meninos preferem jogar futebol. Em casos extremos são proibidos. Cuidados como esse que parecem carinhosos aos olhos de pais protetores que não querem que seus filhos sofram, monstram a ele que aquilo que é importante para sua alma, deve ser escondido. Se precisa ser escondido é porque vai contra ideias e valores sociais, ou então, contra valores dos próprios pais que projetam na sociedade o pai castrador. 

Mas, como não deitarmos no leito de Procusto? Conseguir identificar a origem de nossas angústias, tédio, medo, insegurança permite que encontremos aspectos que, ao julgamento do outro, não eram importantes para nós em detrimento de algo de muito valor. Perceber o nosso limite e olhar para dentro da nossa sacola, vasculhar e encontrar escondido o valor mais precioso que nos foi e que permitimos ser retirado de nós é um caminho para o encontro da alma. No entanto, os talentos, traços inatos que foram desencorajados estão próximos a nós e, muitas vezes agindo de maneira primitiva como uma tentativa de nos chamar atenção. Recuperá-los é fonte de energia para caminharmos rumo a totalidade. 







quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Culpa: reconhecimento é essencial

Ao pensar no tema desse mês me veio a ideia de falar de um sentimento recorrente na vida das pessoas, a culpa. Para entendermos de que culpa falarei, usarei como referência o livro de James Hollis "Os pantanais da alma". O autor classifica três tipos de culpa, que são:

1 - A verdadeira culpa como forma de responsabilidade
2 - A culpa como defesa não autêntica contra a angústia
3 - A culpa existencial.

Hoje falarei da culpa como forma de responsabilidade. O que o autor quis dizer com culpa como responsabilidade?

"Se a tarefa da individuação obriga a expansão da consciência, nenhum de nós pode se dar ao luxo do conforto casual da inocência. Nenhuma pessoa consciente pode se dizer inocente, seja no nível pessoal, ou, como Albert Camus deixou claro em The Fall, seja no coletivo. Cada um de nós é uma parte de urdidura da mesma sociedade que criou o Holocausto, que perpetua o racismo, o sexismo, a superioridade da idade, a homofobia, quer participemos ativamente ou não dela". 

Somos parte de um todo e como parte, responsáveis pelo mal ocorrido e pela manutenção de atitudes preconceituosas e imorais. 

Para James Hollis é necessário o reconhecimento, a recompensa e a remissão. Reconhecer o erro, o mal que causou a si próprio ou a outra pessoa é o primeiro passo para conscientização e assim a possibilidade de lidar com esse sentimento. Lidar com as consequências de suas escolhas é a entrada na vida adulta, qualquer omissão é refugiar-se em uma atitude imatura e sem perspectivas de desenvolvimento. 

A recompensa para si, quando há a possibilidade de perdoar-se traz a remissão da culpa. No entanto, quando o mal cometido fere outra pessoa há duas possibilidades, buscar a remissão com o ferido ou, na impossibilidade, buscar simbolicamente tal absolvição. Mas, só há valor na recompensa e remissão quando o arrependimento é genuíno. Qualquer coisa fora disso, como diz o autor, nada mais é como a materialização da alma.

Jung nos ensinou que o erro está dentro de cada um, por mais que o mundo lhe apresente várias facetas errôneas e imorais, é dentro de cada um  que está a possibilidade de olhar para sua sombra e assim fazer algo significativo para a humanidade. 

Finalizo o texto com um trecho do livro que para mim resume o verdadeiro caminho para a remissão da culpa com responsabilidade.

"Declarar que eu errei, que eu sou culpado de escolhas inadequadas e das suas dolorosas consequências, não apenas é o início da sabedoria, como também o único caminho que pode, em última análise, conduzir à libertação"

Assumir não é um ato de humilhação e sim de humildade e crescimento.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Dores do amor!!

"Só se poderia pensar em amor livre se todas as pessoas realizassem elevados feitos morais. Mas a ideia do amor livre não foi inventada com esse objetivo, e sim para deixar algo difícil parecer fácil. Ao amor pertencem a profundidade e a fidelidade do sentimento, sem os quais o amor não é amor, mas somente humor. O amor verdadeiro sempre visa ligações duradoras, responsáveis. Ele só precisa da liberdade para escolha, não para sua implementação. Todo amor verdadeiro profundo é um sacrifício. Sacrificamos nossas possibilidades, ou melhor, a ilusão das nossas possibilidades. Quando não há esse sacrifício, nossas ilusões impedirão o surgimento do sentimento profundo e responsável, mas com isso também somos privados da possibilidade da experiência do amor verdadeiro".

O amor é um tema muito falado e pouco vivido. O amor é confundido o tempo todo com posse e dependência. Quando Jung fala que o amor precisa de liberdade para escolha, penso que o amor para ser vivido precisa ser um desejo e não uma necessidade. Estou nessa relação porque gosto, porque quero e não porque preciso. Estou porque o escolhi.

O que faz uma pessoa precisar estar na companhia do outro para, de fato, sentir-se amada? Seria esse o sentimento sincero de uma relação? Não seria a baixa auto-estima o combustível do ser dependente? Poder amar a si mesmo é permitir-se admirar-se e o admirável é notado, por si e pelo outro. A partir daí basta o outro reconhecer-te como um ser desejável em sua plenitude humana, cheia de falhas, cheia de defeitos e imensamente coberta pela qualidade do amor a si mesma e do amor ao próximo. O sacrifício não significa apenas renunciar algo em prol do outro, mas acima disso, é um sacrifício quando pensamos na origem dessa palavra vinda do latim sacrum facere, uma oferta ao sagrado. Sacrificar algo em si não precisa ser visto de maneira negativa, já que, o sacrifício é em prol de algo superior, nesse caso, o amor. 

Amar o outro como a si mesmo não é um mandamento que colocaria o escolhido acima de ti, mas sim igual na importância e no merecimento desse sentimento. Amar o outro mais do que a si mesmo é amor ou posse? É amor ou necessidade? É amor ou dependência? 

Segundo Jung "O amor é como Deus: ambos só se oferecem a seus serviçais mais corajosos".

Amar não é fácil quando exige de você que ame o outro como a si mesmo, já que amar-se tem sido, talvez, o amor mais difícil de conquistar. Consequentemente não há possibilidade do amor ao próximo, ou seja, não há possibilidade do amor em uma relação quando o olhar sobre si é tão frágil e apagado. 

Eros, é amor em sua essência, Eros é relacionamento e para finalizar esse texto, trago uma frase belíssima do sábio Jung:

"Raramente, ou melhor, nunca um casamento evolui a um relacionamento individual de forma serena e sem crises. Não há conscientização sem dores"