A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Desesperado desencontro: uma possibilidade em si.


Passamos parte de nossas vidas a espera de encontros. O encontro com o grande amor, com os amigos, com o chefe, o novo trabalho, a nova casa, a família, o filho, a escola, a viagem esperada, o retorno desejado, o vizinho, o cliente, o paciente, os funcionários, com o fim do dia e do ano, com situações boas e aquelas que queremos eliminar. Os encontros são combustíveis no processo de desenvolvimento. Com eles aprendemos algo de nós e deixamos parte naquele momento. 

Nos encontros experienciamos diversos sentimentos e sensações. Coração acelerado, medo, angústia, ansiedade, felicidade, tristeza, agonia, desespero, euforia, alegria, desamparo, decepção, surpresa, esperança, indignação. Uma infinidade de emoções se enlaçam nas relações mas, um encontro, talvez o maior deles, seja o mais impactante e difícil: o encontro com o espelho. Aquela imagem que vemos refletir diz muito de nós, mas não tudo. Conseguimos enxergar determinadas partes e temos que imaginar como somos naquilo que nossos olhos não alcançam. Podemos viver cegamente na imaginação e na maneira conveniente para manter o reflexo belo e simpático. Mas quando desejamos ir além, distinguir aqueles pontos que não são tão agradáveis, decidimos descortinar a imagem bela refletida no espelho e assim descobrir, como diz Caetano Veloso, a dor e a delicia de ser o que se é. 

Nesse momento em que optamos por deixar o espelho de lado, temos a possibilidade de assentirmos o encontro com a alma. Na análise permitimos não somente o encontro como também o desesperador desencontro. Ir se encostar no lado oposto, notar que aquilo que imaginava ser "eu" nada mais é que um singelo reflexo, uma ínfima parte de mim. Aquele reflexo pode te dizer como é a forma, mas tudo que contém dentro dessa forma vai além dos permitidos encontros da imagem com os olhos. O olhar é mais do que encontrar a imagem, é sentir a imagem de si inteiramente. 

Ir ao encontro do desencontro é notar tudo que se tornou crença e perceber que se desconhece parte fundamental de si como a possível chave para a  libertação. Libertação das verdades, das opiniões enraizadas, dos olhares presos, da ideia fixa de satisfação plena, é aceitar a dor assim como a doce felicidade. Notar que o espelho traz nada mais, nada menos que uma fixação em uma imagem idealizada de si. Quando nos olhamos no espelho fixamos em determinadas partes, aquelas que geram o sentimento intenso de adoração ou repulsa. Nos treinamos na fixação e pouco fazemos para passear com a mesma dedicação por todo nosso ser. Existe uma tendência humana em fragmentar-se e, quando nos percebemos em pequenas molduras nos consolidamos como sendo um quadro replicado. Algo do artista em si fecha-se na sua criatividade intensa para ser lembrado por uma única imagem. Talvez aquela imagem se torne grandiosa ou pode tender a ser mera cópia de outra arte, ou de qualquer outro olhar fixado. Jogar o espelho fora e tocar, cheirar, sentir o gosto do que se é. Desencontrar para assim encontrar-se. 

"Somos, nem tanto por burrice, mais por reflexo condicionado, prisioneiros do julgamento alheio. Tememos outras alternativas que não sejam as já testadas e aprovadas. Os diferentes abrem caminhos, criam opções, sobrevivem da própria independência, enquanto os outros vêm atrás concorrendo ao título de melhores ou piores em repetição" - Martha Medeiros

 





sexta-feira, 21 de novembro de 2014

¨Do que vale olhar sem ver?¨

Em que preciso melhorar? Será que não enxergam o quanto aquela pessoa é cruel? Por onde devo ir? Quero fugir daqui, mas para onde vou?

Muitas vezes esses pensamentos nos assombram e algo maior vem ao nosso encontro tentar nos manter na posição do acorrentado. Se pensarmos na origem da palavra sofrer, que vem do latim "sufferre" - "sob ferros", entendemos que esse sentimento nos coloca numa condição submissa diante do outro ou mesmo diante da vida.

Reflito constantemente sobre a posição que o ser humano tende a se colocar para fixar-se no lugar da resignação, afinal quando há uma superação a gente cresce. Mas, a alegria da superação pode ser pelo olhar de aprovação do outro. Ouvimos falas como: "Você viu o fulano sofreu tanto, agora merece ser feliz", "Coitado, passou por tantas provações". O quanto não esperamos esse alvará para escolhermos outro caminho? A dúvida é: queremos esse crescimento para quem? Temos em nossa cultura uma ideia equivocada de que para se ter valor tem que haver sofrimento. O nosso crescimento favorece não somente a nós, mas ao mundo. O sofrimento é apenas um degrau e não o degrau. Quando colocamos a condição humana da dor como sendo o caminho podemos viciar nele. Viciar na dor é escolher o outro como direcionador do trajeto. Compreender que a dor faz parte não significa que ela é a única forma de me permitir um caminho mais brando. Quando me alivio da culpa, do ressentimento, das mágoas, tiro de mim uma avalanche de dor assim como a imagem do desvalido.

O desafio de mudar a si mesmo vai além do olhar egocêntrico do que desejo, vai em busca daquilo que entendo por flexibilidade, maturidade e amor. É ir ao encontro não de um molde do bom cidadão e do bom cristão mas, sair do padrão para livremente sentir a si mesmo. Quando desejamos a mudança em nós algo cresce em direção a compaixão. Esse sentimento que nada mais é do que aliviar o outro de seu próprio sofrimento, nos direciona além de nós mesmos. E assim abrimos uma infinidade de possibilidades para existência do outro. Aceitar o diferente exige primeiramente aceitar-se como diferente. Ser diferente não é a busca do ser especial, mas sim o reconhecimento das igualdades. Ser compadecido do sofrimento do outro não necessariamente te coloca numa atitude genuína de proximidade e compaixão, pode te aproximar da vaidade e do desafio de manter-se na imagem benevolente. No entanto, quando me aceito na mais profunda diferença e na mais real igualdade eu acolho o outro na sua intrínseca existência. 

Muitos são os desafios, mas como diz Goethe "Do que vale olhar sem ver?". De que me adianta um olhar para o outro se quando o vejo enxergo somente os meus desejos?  Conhecer a si mesmo vai muito além do olhar. 

"Compreendemos sempre os outros como a nós mesmos, ou como procuramos compreender-nos. O que não compreendemos em nós  próprios, também não o compreendemos nos outros". (C.G.Jung, A natureza da psique).

terça-feira, 21 de outubro de 2014

"Da maneira como falas, assim é teu coração"

Esse mês me deparei com uma citação muito bonita na qual gostaria de passear. 

"A fala não é da língua, mas do coração. A língua é meramente o instrumento com que se fala. Aquele que é mudo, é mudo no coração, não na língua (...). Da maneira como falas, assim é teu coração". (Paracelso)

É comum quando nos encontramos diante de uma escolha ouvirmos de alguém próximo: "Faça o que o seu coração fala". Dificilmente as pessoas se acalmam com esse tipo de orientação pois a ânsia de um caminho que vem pela lógica intelectual está presente diariamente em nossas vidas. No entanto, a sabedoria de tal observação permite ao outro a liberdade do contato com o seu próprio centro.

O mesmo serve para aqueles que muito falam, falam sem parar para observar-se. Emitem opinião sobre tudo e muitas vezes nem sequer prestam atenção a quem se fala. Caminhar para dentro de si, deixar que o coração, o afeto se exprimam é permitir além do racional algo mais próximo que pode acarinhar ou destruir o outro. 

Recentemente nos debates políticos vimos pessoas ofenderem sem nenhum censo crítico, mas o pior é perceber que tal fala é fala daquele coração. Corações duros, maldosos, se aliam a mentes e ideias obscuras e cruéis. Mas como atribuir ao coração o ódio? Uma imagem que naturalmente está tão ligada ao amor parece desconectar-se do aspecto maldoso. Seria possível essa dualidade dentro dessa imagem? Acredito que sim. Sementes boas e más possuem coração. 

Olhamos mais facilmente para a fala vinda dos corações mais nobres e também para a fala dos corações doentios e pouco nos permitimos o contato com o nosso. Admiramos pessoas que conseguem seguir tal "intuição" e ao mesmo tempo não nos percebemos capazes de aproximarmos do nosso centro. É um exercício árduo que nos faz perceber nossos sentimentos mais ricos e também os mais carentes. Quando excluímos a possibilidade de escutá-lo nos aliamos mais ao nosso racional. Quando nos fixamos na razão assumimos, unilateralmente, o risco de que o sentimento se apresente de maneira arcaica e impulsiva e, dessa forma, não há conexão com uma outra sabedoria. A polarização razão/sentimento traz prejuízos imensos em nosso caminhar. No entanto, se conseguimos ouvir a voz do coração, assim como ouvimos a voz da razão, nos colocamos diante de uma sabedoria singular e consequentemente abrimos espaço para um outro tipo de escolha. 

Um coração leve ou pesado diz muita coisa. Um coração sofrido conta muitas histórias, um coração alegre emite muitos sorrisos, mas um coração que não se faz ouvir se torna um mero órgão bombeando sangue. O que dizer de um coração não ouvido? Ele proporciona a vida, todavia uma vida não vivida se torna uma sobrevida. 

Viveremos ou sobreviveremos? 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A arte de tecer

Será possível criarmos uma imagem do tecer para iniciarmos esse texto?

Fechem os olhos e se imaginem frente a um singelo tear. Aqueles que nunca se depararam com um, têm a possibilidade de testar. Os que têm domínio sobre a arte de tecer, logo se acomodam na cadeira mais confortável e colocam as mãos a obra. Diante desse tear, você encontra uma linha, pega a ponta e coloca no topo para assim dar início a cada trançada. Você tem uma ideia do que deseja criar, escolhe as cores das linhas que iniciará o trabalho, mas sabe que ao fim pode estar bem diferente do que imaginou. As linhas podem mudar suas cores. Alguns nós precisam ser feitos para outros tons surgirem durante todo tecer, e é assim que se estabelece o trançado da vida. Bem-vindos a terapia.

O fiar é o caminho que fazemos na análise. No momento em que o encontro entre o analista e analisando acontece é como se entrássemos nessa sala do tear. Nos colocamos frente a uma situação completamente nova e desconhecida ou nos sentamos confortavelmente nesse ambiente já familiar. Seja um pouco mais lento ou não, é diante da possibilidade de tecer a sua história que se cria um ambiente propício para reflexão, para o olhar mais profundo, para a plasticidade da vida e a dureza dos olhares viciados. É nesse diálogo que se estabelece os fios que vão se enroscar, dando vida, cara, dando nós que significam e resignificam nossa jornada.

É a possibilidade de darmos asas a criação de algo maior em nós. É como se permitir o surgir de uma arte verdadeiramente sua. Muitas vezes temos que desfazer parte do que construímos para percebermos que não é o melhor caminho. Doloroso e gratificante é olhar para as escolhas e mais ainda para dentro de nós. Ilusório é aquele que acredita realmente saber quem é. Quando o recolhimento não é possível, o contato com a própria produção interna se esvai. Os que ficam tomados pela certeza da produção do outro se desconectam de si e passam a ver o tear do vizinho como sendo o seu tear. Aquele exemplo externo vira modelo e orientação, e com isso o distanciamento e o abismo se instala em si. 

Quando decidimos ir ao encontro da análise escolhemos, por algum motivo maior, entrar na sala do tear. Se vamos nos acomodar na cadeira e escolher os fios para criarmos nosso trançado ou se vamos ficar um período a observar o funcionamento da tecelagem pouco importa. O primeiro e mais valioso passo é quando percebemos que somos capazes de nos recolher e nos permitir a possível conexão. 

Para finalizar trago mais uma frase da minha amada Clarice Lispector:


 "E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei.”

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Quando a dor é um grito da alma

"Há mais coisas numa vida humana do que permitem nossas teorias a seu respeito. Mais cedo ou mais tarde, alguma coisa parece nos chamar para um caminho específico. Essa "coisa" pode ser lembrada como um momento marcante na infância, quando uma urgência inexplicável, um fascínio, uma estranha reviravolta dos acontecimentos teve a força de uma anunciação: isso é o que eu devo fazer, isso é o que eu preciso ter. Isso é o que eu sou". J. Hillma - "O código do ser"

Quantas pessoas buscam durante uma vida o seu próprio caminho? Quantas pessoas buscam o sinal da alma? Quantas vivem a procurar algo que não tem nome? Quando falo desse jeito parece que a minha necessidade está fora e a qualquer momento vou me deparar com ela na rua. No entanto, para encontrar o caminho é preciso voltar-se para dentro. 

Percebo com certa frequência uma sensação coletiva de "estar perdido", sem saber qual caminho seguir. Muitas pessoas procuram a terapia justamente por terem essa sensação tão forte. Quando se permite esse recolhimento para o diálogo interno, seja através das imagens, dos sonhos, dos desejos, das conversas de corredor, das lembranças da infância, da adolescência, a alma dá um sinal. O problema é que o sinal é visto, muitas vezes, como loucura, como algo inalcançável, impossível. 

Abandonar aspectos importantes e muitas vezes solidificados é se permitir encontrar com algo tão forte e fluido, é ter que encarar, muitas vezes, um sentimento de culpa, é prender a respiração e soltar todo o peso. É tomar consciência do enquadramento social que nos impusemos. É perceber que o turbilhão foi necessário, cumpriu sua função. É um processo minucioso que precisa ser olhado e cuidado com carinho. É ter a certeza de que as dores serão compreendidas. É aprender a suportar e ir adiante. É depois de tudo isso se enxergar mais forte e flexível.  É permitir o encontro com a tranquilidade, com a harmonia daquilo que se sente, pensa e faz. Tão rico e tão terno.

Muitas vezes os dons, os talentos são reprimidos pelas circunstâncias da vida. A vida endurece e a sensação de estar no lugar errado nos força a tomar uma atitude. Assim permitimos acordar a coragem e a força existente dentro de um coração, aparentemente, fragilizado. Para encontrar a si mesmo é necessário começar a lapidação. Dar ouvidos para alma é se deparar com a possibilidade do nascimento de uma nova vida. Uma vida em si.

Enfim, após dar início com Hillman, termino o texto com Clarice Lispector:

"Em vez de dizer "o meu mundo", digo audaciosa: o mundo depende de mim. Porque se eu não existir cessa em mim o universo" 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Quando o ódio guia a vida

Pensar nesse sentimento é imediatamente tentar recusá-lo. O ódio não costuma ser visto como parte da psique tentanto trazer um alerta para a consciência. Evitar esse sentimento é negá-lo, negá-lo é deixá-lo atuar sombriamente.

Quando o ódio age na sombra ele destrói, torna-se um obstáculo no fluir natural da vida. Traz angustias, desespero, sensação de vazio, destrói relacionamentos, cria uma sensação real de perseguição e o mais importante, o mal sempre se concentra no outro. 

Esse mês trago o texto de Sônia Lyra, "O ódio". A autora discute esse sentimento como sendo o "diabo" em nós. Aquele que traz obstáculos e impede nosso desenvolvimento. O ódio coloca o "eu" no centro, no foco e, desfoca o sentido real da vida. Ele nos tira a paz, nos põe em estado permanente de alerta como se precisássemos nos defender do mundo. No entanto, quando tomamos consciência percebemos sua função. Olhar para o ódio que nos acomete, nos permite uma abertura de mente, uma conexão com o nossos reais problemas e nos dá a possibilidade de mudança. No entanto, vamos ver como Regina Lyra, aponta esse sentimento nas relações. 

"Nada para nós tem verdadeiro VALOR, sequer nós mesmos. Nos transforma em comediantes de uma comédia em que queremos dos outros uma coisa: que acreditem em nós. É o "eu" que está sempre em jogo. Há um desejo contínuo de VINGANÇA. A vingança gira em torno da REVOLTA e do RESENTIMENTO. Consciente ou inconsciente ela está sempre ali. Como derrubar o outro? Como vou persuadir os demais de que o outro não presta, não tem valor?" (Caixa alta da autora)

O ódio se representa no mal que eu vejo no outro. Perceber a projeção é nos dar a possibilidade de conscientização e assim nos reconectar com o nosso sentido de vida. O ódio, o mal entregue a um alguém qualquer, nos cega e nos traz a nítida sensação de estarmos certos. A razão se torna nossa inimiga pois, como conselheira do ego, nos mantém presos a fantasia de que realmente somos uma única parte boa. O ressentimento nos guia para um caminho distante de nós mesmos. 

De uma outra maneira esse sentimento nos mostra que algo não anda bem, quando o medo, o pânico e a falta de esperança toma conta. Esses sentimentos nos dão alerta de qua algo reprimido impede o fluxo natural da vida e aí, é hora de procurar ajuda. 










segunda-feira, 21 de abril de 2014

A chave que não trancou


É frequente encontrarmos almas descontentes com suas vidas, escolhas, trabalho, casamento, amizade, família, e uma infinidade de "importâncias desimportantes". De maneira recorrente me deparo com essas almas perdidas e que aparentemente se percebem sem caminho. 

Muitas pessoas dizem que precisam seguir em frente, fechar a porta e não olhar para trás como se num passe de mágica fosse possível esquecer parte da vida. Os sonhos se confundem com desespero, com desalento, se perdem da função de guiar no caminho da vida. Quando os sonhos se confundem eles ficam frágeis e a mercê de impulsos primários de prazeres sem significados.

Afirmativas como "Não consigo fazer", "Não me sinto capaz de arriscar", "Meu medo não me deixa ir", me faz pensar o que essa pessoa precisa juntar e descobrir em si para seguir o impulso vital que, por algum motivo, está sendo bloqueado impedindo a alma de se manifestar.

Todos nós temos nossos impulsos, sonhos, guia e caminho, no entanto, nossos medos,receios e as infinitas justificativas impedem de identificar o que nos é, de fato, importante. Muito me questiono quantos sonhos se perderam nessa vida, quantos desses sonhos deram lugar a imagens fugazes?

Reencontrar a alma é dar espaço para a sua própria fala, o seu próprio sussurrar. Abrir caminho para que o singelo sussurro transforme-se em uma majestosa linguagem é dar vida a vida.
Prestar atenção nas ideias súbitas pode ser um caminho de encontro com a alma, arriscar-se, saltar, ir adiante é simplesmente o passo que pode ser o mais importante.

"Descobri que adoro fechar portas,
As portas fechadas me presenteiam,
Cada porta fechada me traz paz,
Cada porta fechada um passado jaz.
Atrás da porta sim, 
Atrás da porta senti medo, tristeza, angústia,
Atrás da porta senti desespero, aperto, decepção,
Atrás da porta não via saída,
Atrás da porta só via a mim e a minha solidão.

Ao descobrir a fechadura, a chave e o trinco senti,
Senti alegria, esperança, conforto, segurança e gratidão.
Descobri que fechar a porta é abrir,
Abrir não ao infinito e as suas possibilidades,
Mas abrir caminho para a minha vivacidade, 
Abrir para a escolha não é um simples abrir,
É simplesmente me abrir.

Aprendi a agradecer a porta que se fechou e,
Ao passado que ali ficou.
O belo de todo aprendizado foi o que gerou,
A chave que não trancou.

Aprendi que a chave de nada me serviu,
O mais lindo foi o que dela surgiu,
A porta que amei fechar não precisava da minha chave, 
A porta que amei fechar estava ali a esperar,
Pacientemente pelo meu passar".


Enfim, vamos permitir nos encontrar com aquilo que realmente somos, não só com os nossos erros, mas sim com nossos sonhos. 

domingo, 30 de março de 2014

Felicidade: uma busca em mim

Quem sou eu? O que faço nessa relação? Por que tenho escolhido me deixar maltratar? Quando vou conseguir ser feliz de verdade? Por que não consigo encontrar alguém que me ame? Questões como essa são rotineiras. 

Vivemos em uma era onde modelos pré concebidos de relacionamentos estão a torto e a direito em nossas vidas como regras pré determinadas que devem ser seguidas. Recentemente um casal, muito adorado pela mídia, rompeu seus laços e com isso romperam socialmente a imagem de um casamento de príncipe e princesa. O mais óbvio era a necessidade de se ter um vilão, no caso uma vilã. Repercussão nacional. Ninguém ousou questionar que aquele relacionamento já não ia mais tão bem, ou que a atitude de quem trai não é com relação ao parceiro mas a si mesmo. Nenhum questionamento foi possível, afinal existia uma vilã.

Historicamente muitos casamentos acabaram assim e tiveram impacto socialmente. O incrível é que muitas pessoas se permitiram repensar suas próprias relações. Perguntas vieram à tona e a mais frequente : Será que existe a felicidade no casamento?

Que felicidade é essa que tanto procuramos? Existe essa condição estável e plena? Penso que vivemos momentos de alegria e de felicidade que ficam na memória, mas o que se mantém é o desejo da plenitude permanente. A meu ver, a felicidade está no encontro com a alma. Isso parece tão subjetivo e distante mas, não seria a felicidade concreta, depositada em algo ou alguém um erro fadado ao fracasso? 

Linda S. Leonard em "No caminho para as núpcias" diz:

"Ter relacionamento pleno e saudável com outra pessoa exige que eu mesma seja pleno e saudável" 

Como exigir da vida que a minha felicidade venha da relação com o outro se não consigo entrar em contato com que sou e conseguir ser em mim? O processo de terapia term como propósito o contato com o interior. É como entrar num rio com o objetivo de ir até a nascente. Não é um processo linear, exige tempo, paciência e respeito. É seguir seu fluxo, enfrentando obstáculos naturais e pacientemente lidar com os sentimentos que surgirão. É entrar no rio e olhar adiante com a única certeza que aquele caminho levará a sua fonte inesgotável do ser. É o tempo da energia voltar para o interior. 

Os momentos ficam na memória e muitas pessoas deprimem por viverem nostalgicamente. Encontrar em si a felicidade, é encontrar a paz interior e refleti-la na vida. Como eu lido com aquilo que a vida me apresenta é que me dá a chance de viver bem. Mais uma vez, precisamos eliminar a ideia que alguém nos traga p necessário para a felicidade. Ilusão que nos persegue e alimenta a ideia de que nosso parceiro precisa fazer por nós mais do que nós a nós mesmos. Pensar na felicidade como algo depositado no outro é esperar que a felicidade chegue até mim. Entrar em contato com o interior é perceber felicidade em  mim. 







terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O individualismo responsável na era pós-moralista

Lendo a revista Filosofia (46) me deparei com o filósofo Gilles Lipovetsky que traz uma reflexão sobre o individualismo em uma época que ele denomina de pós-moralista. O individualismo de Lipovetsky é o individualismo responsável. 

Segue abaixo um trecho da reportagem:
"O indivíduo contemporâneo não é mais o egoísta que foi em eras passadas. A mudança está, necessariamente na constatação: "pensar só em si não é mais tido como algo imoral" (Lipovetsky, 2005), o eu conquista o direito de cidadania, no entanto, sem deixar de lado os eflúvios da bondade. De um lado, tem-se uma moral que se deseja ver incorporada à sociedade, ou, noutras palavras, a sociedade aplaude a honestidade, a polidez, o respeito etc; por outro lado, a obrigação de se abnegar ou de imolar-se, não está no cerne das preocupações. "A nova era individualista conseguiu a façanha de atrofiar nas consciências a alta consideração que desfrutava o ideal altruísta, redimiu o egocentrismo e legitimou o direito de viver só para si" ( Lipovestsky, 2005). São desacreditados o espírito de sacrifício e o ideal altruísta. No vazio deixado, a cultura pós-moralista supervaloriza os direitos subjetivos. Na concepção de Lipovetsky, a fórmula do invidividualismo consumado é manifestada na não obrigação de dedicar aos outros" 

Ainda, essa semana, lendo algumas frases de Clarice Lispector me deparei com a seguinte colocação: “De agora em diante eu gostaria de me defender assim: é porque eu quero. E que isso bastasse.”

Clarice Lispector foi uma grande mulher, que no seu profundo contato com a alma deixou um enorme tesouro para a humanidade. Por isso, trago como exemplo nesse texto.

Unindo essas duas citações acima, relaciono ao que tenho encontrado diariamente na vida e no consultório. Como a obrigação, em tempos não muito remotos, de se dedicar exclusivamente ao outro, ou ainda em sua maior parcela de tempo, era considerado bondade, amor, compaixão, altruísmo. Isso de alguma forma ainda sufoca almas que gritam por auxílio, o de olhar para si. Ouvir os sussurros subjetivos e seguir o próprio caminho ainda pode ser visto como algo individualista e egocêntrico. Me surpreendi com a colocação de Lipovetsky que traz a conotação mais positiva de um individualismo responsável e a nova noção da ética inteligente, onde a compaixão ganha um espaço genuíno e verdadeiro, sem obrigações, sem deveres. Ou seja, há um olhar mais singelo para os benefícios e não para as intenções. 

Interessante pensarmos que o contato profundo com o nosso ser nos faz mais tolerantes enquanto que, na ideia do altruísmo, distanciamos de nós e aproximamos cada vez mais de ideias construídas de que servir ao outro é servir a si. Enquanto ficamos focados somente na relação, facilmente caímos na armadilha das brigas incansáveis de verdades subjetivas. A relação me permite ser, no entanto, eu não consigo ser se não sei quem eu sou. Sendo assim, a ignorância de si faz com que se lute pelo que se acha ser, como sendo modelo do melhor a ser. 

Vejo aberta a possibilidade do caminho individual ser mais benéfico ao social, ao familiar, ao institucional quando, no ouvir a si mesmo o outro passa a fazer parte e, não mais, eu faço parte pelo que faço pelo outro. O dia a dia nos traz aprendizado, mas o contato com a nossa alma nos torna mais humanos. 


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A ética e o equívoco da reciprocidade

Há algum tempo penso sobre o que fazemos com as ideias adquiridas durante a vida e o quanto nos precipitamos em fazer pelo outro o que gostaríamos que fizessem por nós.

Crescemos em uma sociedade onde a ordem moral religiosa tem força perante nossos comportamentos. Sendo assim, se não questionarmos, agimos de maneira egoísta e pouco empática. Entendo que há necessidade de uma ética de reciprocidade, no entanto, a meu ver, precisamos compreender qual reciprocidade ética é essa que ao invés de nos aproximar um dos outros, pode afastar e nos colocar cada vez mais próximos de um comportamento egoísta. Quem nunca ouviu?  Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem para você.

Logicamente podemos levar essa fala de uma maneira radical e óbvia. Não gostaria que ninguém matasse alguém que eu amo. Não gostaria que me roubassem, etc. Leis de convivência social são necessárias para que haja minimamente o respeito ao território do outro. No entanto, onde aplicamos de maneira equivocada esse dizer e que nos afasta do nosso próximo? 

Quando consideramos que o melhor para o outro é aquilo que é o melhor para mim me impede de conhecer e me aproximar de qualquer pessoa, afinal aquilo que eu vejo como melhor é o meu melhor. Compreender que na intolerância nos distanciamos e criamos barreiras preconceituosas e que destroem as relações. 

Camille Paglia, disse em uma entrevista à revista Cult: "Creio que é obrigação do intelectual permanecer conectado à imaginação popular".

Quantas pessoas se mostram intolerantes a manifestações culturais da periferia ou da burguesia dizendo que tal música não é agradável, é baixa, e muitos outros adjetivos pejorativos e degradantes que colocam nosso semelhante como inferior por não ter o mesmo gosto musical? A incapacidade de olhar para qualquer pessoa e enxergar nela o seu valor não nos faz absolutamente capazes de agir por mais ninguém além de nós mesmos. Esse é um singelo exemplo diário mas significativo quando percebemos em nós tal olhar.

O meu valor não pode ser maior do que o do outro, isso se dá nas menores atitudes e nas maiores demonstrações de intolerância ao próximo. Como mantermos nosso centro e equilíbrio quando precisamos que o outro se torne pior para que eu cresça diante do espelho? 

Conhecer a si mesmo te faz mais tolerante consigo e consequentemente mais humano com o outro. Começo esse ano fazendo um convite para olharmos para dentro. É importante o autoconhecimento pois, nos aproxima de nossa alma e nos permite entrar em contato com a nossa inteireza. E para finalizar, trago uma frase muito bonita do C.G.Jung:

"Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der".