A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Em 2016 não vamos lutar pelo diferente!

A dor dilacerante de ser diferente, será que nossa maior luta deveria ser para uma ampliação da consciência quanto as diferenças? Não seria necessário percorrer um caminho maior? Será que quando ampliamos a consciência para nossa noção de igualdade não estaríamos mais propícios a aceitar a pluralidade? 

Quando penso na luta pelas diferenças algo me aperta o peito. Estou lutando pelo que? Para que o outro, que é visto como algo estranho, seja aceito? Eu não quero que ninguém seja visto ou classificado como sendo estranho que precisa ser incluído. Não me sinto nem um pouco a vontade em lutar para que o diferente seja aceito ou tolerado. O que desejo é a integração. Integrar em mim que sou igual dentro da pluralidade e integrar socialmente a pluralidade humana. Esse "diferente" classificado socialmente é algo que está submetido ao desejo de muitos em ter alguém abaixo daquilo que eu considero "normal". Se estabele uma relação de poder. 

Somos tão diferentes assim? Me vejo mais igual do que diferente. As nossas escolhas caminham por estradas, muitas vezes opostas, mas ambos buscam por um caminho. Nossos gostos e ideias são ligeiramente divergentes mas ambos possuem gostos e ideias. Que ideia é essa que estamos nos enfiando? Olhar a pluralidade pela perspectiva da igualdade me soa coerente . Olhar a pluralidade como algo comum ao ser humano me parece mais possível. 

Penso que na base da luta dolorida daqueles que estão nas camadas a serem incluídas, tem algo maior do que ser aceito. Tem uma necessidade de inclusão da normalidade na pluralidade. A palavra diferente no dicionário, sugere algo além das singularidades, tem estranho, esquisito, excêntrico. E quem não é? Aqueles que são contra a naturalização da vida lutam para manter o poder e ter sempre alguém subordinado a que? Essa imagem me remete claramente a manutenção da escravidão. Socialmente precisamos ainda de seres inferiorizados? Será que a luta pela diferença não seria um tiro no pé? Não seria a manutenção do discurso de não aceitação? Essa é minha mensagem de boas vindas ao novo ano. Que em 2016 sejamos mais próximos uns dos outros. Que a proximidade seja de alma e não de discursos de sofá. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

No silêncio das árvores o vento é uma voz alta que se impõe.

Tem momentos na vida que o que prevalece é o silêncio. O silêncio da fala, o silêncio da ansiedade, o silêncio do impulso, o silêncio do andar, o silêncio da respiração, o silêncio da preocupação. O silêncio é tão intenso que começa a trazer um outro lugar no mundo, outros valores, outros ares e outras pessoas. Mas o silêncio por si só incomoda quem está de mãos dadas com o barulho. E é aqui que o início de uma luta se faz presente. Quanto tempo conseguiremos tolerar nosso verdadeiro silêncio quando o mundo nos exige uma voz alta e estridente? 

Um dia desses, nesse tempo incerto caminhava pela rua e parei com meu filho embaixo de um limoeiro, ali fiquei parada olhando os frutos que se desenvolviam. No profundo silêncio o cheiro do limão me fez conversar. Como a natureza é sábia e forte. Aquela pequena árvore fazia lentamente o seu processo em vida. No momento certo apresentou ao mundo seus filhos, deu a eles o necessário para crescerem fortes e se desprenderem de seus longos braços. Se tornaram grandes, suculentos e capazes de criar suas próprias raízes. Alguns serão os nossos alimentos e aqueles que, antes do tempo da colheita, caírem ao chão se tornarão dispensáveis a nós seres humanos exigentes, para dar a terra o melhor de seus nutrientes. Nesse mesmo instante o vento, a chuva começaram a balançar  os galhos daquela árvore e mudou o percurso que idealizei para aqueles frutos e, como reagiu a natureza? Aceitou! Somos capazes de simplesmente aceitarmos o caminho que a vida nos impõe? Somos capazes de aceitar as tempestades e suas consequências? 

No silêncio das árvores o vento é uma voz alta que se impõe. No silêncio das árvores sua copa é uma voz alta quando o sol se impõe. Diante do sol e diante do vento algo em nós, filhos da natureza, age na contramão do que nos foi ensinado. Diante do silêncio da vida e do silêncio da morte todas as vontades se impõe. Diante da vida e diante da morte todo controle se impõe. Mas diante daquilo que precisa ser não há tentativa de imposição que se faça tão forte quanto a jornada de cada alma. O processo é lento, silencioso, solitário e transformador.  


"Diz-se que, mesmo antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano. Por um lado é desaparecimento e por outro lado é renascimento. Assim somos nós. Só podemos ir em frente e arriscar. Coragem! Avance firme e torne-se Oceano!" - Osho

"O Rio e o Oceano" é minha tentativa de finalizar um texto, mas de maneira nenhuma colocar um ponto final no silêncio que guia.

domingo, 23 de agosto de 2015

Morrendo em mim: um caminho mais que necessário.

A morte é sempre um tema aterrorizante para muitas pessoas. O medo da morte, do pós morte, de perder alguém, de sentir que a vida não está em nossas mãos. Ver tudo passar rápido e com a mesma velocidade, o pensamento de que algo poderia ter sido diferente. A morte está longe, distante e muito mais próxima da velhice, ledo engano. Morremos todos os dias, todas as horas. Sentimos saudades de algo que já morreu, um momento, um olhar, um abraço. Vivenciamos diariamente o luto e a dor de algo que ficou para trás. Mas por que ainda temos medo de morrer? Por que sentimos medo das mudanças?

O tempo passa muito rápido e quando temos filhos percebemos com uma clareza, nunca antes vista, de como o tempo é ligeiro, deixa marcas, foge do controle e te mostra o quanto você pode viver muito mal. Não falo de viver bem todos os dias na maior intensidade, em ser grato, nada disso. Mesmo porque a dor e o sofrimento podem ser muito eficazes quando o assunto é viver bem. Digo viver bem no sentido da aceitação, de se curvar diante da vida e receber tudo que ela te traz. Viver bem pode simplesmente te custar muito caro, custar as dores de lutas que aparentemente não são suas. Pode te custar dores intensas de cabeça ou até mesmo uma coluna travada. Talvez com todo desconforto você perceba que está vivendo bem. Resolveu que o mundo que está aí fora, todo cheio de achismos e piadas de mal gosto diz muito respeito a você. Que exigir uma voz mais ativa cansa e ao mesmo tempo te traz sentido novo. 

O encontro com o mundo pesado te mostra um pedaço escuro da vereda. Te coloca de volta ao teu próprio caminho e, ao mesmo tempo, você nota que talvez estivesse andando em uma rua iluminada que não era sua. Aquela ali, aquele beco, aquela lanterna velha no chão. Esse sim! Esse sim pode ser o seu trajeto. Nada de seguro, nada confortável e muito menos tão iluminado. Olhar pra sombra é mais do que olhar para aquilo que está fora, olhar pra sombra é se ver nela. É tudo uma coisa só, não precisa ser integrado, basta ser reconhecido, assim como você reconhece seu rosto. Integrar pressupõe algo que esteja fora, que não seja conscientemente seu. Quando entendemos que tudo somos nós, algo muda. 

Ninguém me mostra quem sou, nem mesmo sei quem sou, mas sei que tudo me possui e tudo eu possuo. Sou responsável por cada passo dado, por cada palavra dita e por todas que não foram sequer mencionadas. Sigo meu caminho, morro todos os dias, vivo a morte e a vida como uma só. E como disse Nietzsche: " Depois que cansei de procurar aprendi a encontrar. Depois que o vento meu opôs resistência, velejo com todos os ventos."

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Quem precisa de modelo hierárquico é criança

Uma avalanche de desesperança tem acometido muitas pessoas nesse momento tão delicado em nosso país. Diante de tantos movimentos, sejam eles num âmbito maior a nível nacional, ou naquele pequeno ciclo de amigos e familiares, aqueles que sobraram depois das eleições, nos colocamos em estado de alerta. Um alerta, que a meu ver é bem positivo, que traz a possibilidade de sairmos da constelação da imagem de que somos brasileiros e enfrentamos tudo com um sorriso no rosto. Aquela imagem de amabilidade, de otimismo, de esperança que chegava a beirar a ingenuidade, me parece estar com os dias contados. Ótimo resultado! A dualidade se faz presente e agora temos que encará-la.

Saímos da casa dos pais e encontramos esse mundo nada cor de rosa. Nos deparamos com corrupção, roubo descarado, falta de caráter, falta de ética. Isso sempre existiu. Sim, mas era na casa do vizinho. Nada disso tinha chegado tão próximo como foi na época da ditadura. Diretas já foi um movimento rumo a libertação, o impulso estava de mãos dadas com a esperança. Hoje não sinto isso. Parece que o movimento está de mãos dadas com a desolação. Chegamos ao fundo do poço e não podemos culpar um governo, mas sim precisamos nos responsabilizar por tudo que fizemos da gente. Vejam, tudo que fizemos da gente.

A esperança sem ação não significa nada. Por quanto tempo estivemos nela? Hoje se tem ação sem esperança. Um grito de liberdade! Não queremos mais carregar a marca do povo ingênuo que sorri pra tudo sem enxergar nada. Queremos nos libertar dessa imagem de pessoas pobres de críticas sem discernimento, discriminação e diferenciação. Precisamos urgentemente olhar para o próprio umbigo não mais para dizer eu posso, eu quero, eu faço, mas sim perceber quão corrupto se pode ser. Os países desenvolvidos têm maior noção do próximo. Aqui se tem uma falsa ideia de benevolência, sou bom mas vou logo dando um jeito de ter benefício com relação ao outro. 

Você esquece algo no shopping e com certeza não encontrará quando voltar. Se alguma alma bondosa te devolver pode contar, será manchete no próximo jornal local. Honestidade se tornou qualidade. Qual o sentido daquele sorriso bondoso e amigável do brasileiro se de verdade na primeira oportunidade se rouba o próximo? A responsabilidade de sair da ideia do achado não é roubado. Aquilo que foi achado tem dono e ele pode voltar. Mas, se eu não pegar outro pega. Novamente preciso tirar vantagem. Não sou daquelas que valoriza o que está fora do país, tenho horror a isso. Mas procuro incessantemente defender a ideia de que o que tem valor está dentro de cada um. A minha honestidade não pode ser qualidade, tem que ser um dever. E essa noção de dever está muito longe. Não pode ser culpa de nenhum governante, tem que ser responsabilidade individual. Não podemos mais achar que precisamos de modelo que venha de cima. Quem precisa de modelo hierárquico é criança. Mas, nenhuma criança em desenvolvimento se espelhará em modelo de políticos. Elas olharão para o modelo que tem em casa. Qual é o seu modelo? Que modelo é esse que você consegue ser? Não podemos permitir que justificativas para atos corruptos sejam elementos para prosseguir desde pequeno na ideia descabida do jeitinho para tudo. São pequenos gestos que transformarão grandes atitudes e são elas que te acompanharão em qualquer lugar do mundo.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Meu filho cresceu: cadê o manual?

Quando um casal decide ter filhos muitas expectativas, sonhos e esperanças vêm com a notícia positiva no teste de gravidez. Durante a preparação, os meses que antecedem o nascimento exigem da relação várias mudanças e adaptações. Dependendo de como se desenrola o período gestacional o casal se aproxima ou se afasta. Enfim, planos, livros e textos educacionais começam a fazer parte da rotina dos futuros pais. Desentendimentos começam a acontecer pelo simples fato de cada um ter sido educado em linhas diferentes. No entanto, tem algo deixado de lado que acaba sendo mais determinante do que os padrões de criação individuais. Aqueles que tivemos como pais representam um modelo, e quando nos deparamos com o nosso papel entendemos que somos bastante diferentes daqueles que nos criaram. Consequentemente não conseguiremos ir adiante no modelo pré-determinado.

Nossa nova função nos deixa inseguros, com medo, apreensivos e muitas vezes com os nervos a flor da pele. O crescimento das crianças passa a nos exigir diversas e diferentes atitudes, a hierárquica, a amorosa, a compreensiva e também  nossa firmeza e coerência. Novos medos, novos desafios e tudo que tivemos como modelo pouco nos são úteis. Sabe por quê? Não somos mais aquela criança repreendida, somos adultos diante dos nossos filhos. E como ter o olhar sensível para não enquadrá-los nos livros e nos moldes do histórico familiar? Como olhar aquele pequeno ser nos olhos e dizer a ele que você entende que o tapa foi porque estava bravo? Ou quando o mesmo tapa pode ter sido uma tentativa de te controlar? Qual atitude aquela situação precisa que você tenha?

Todos já devem ter lido várias formas de educar mas cada um tem o seu modo de criar. O grande desafio, a meu ver, é cuidar primeiro de nós como pais. Como anda nossa vida? Como estamos no casamento? No trabalho? A primeira manifestação da educação de nossos filhos é a nossa forma de existir no mundo. Cuidar de si, da própria vida, é poder dar ao seu filho a sua melhor parte possível de coerência. Do que adianta um dia pesado, cansativo, ou até mesmo triste se isso não pode ser mostrado? A criança percebe. Se passamos por cima disso como se fosse algo inexistente aquele pequenino pode captar a existência de algo errado com sua mãezinha, ou seu papai e tentar de qualquer forma animá-los. Resultado? Grandes chances de te irritar. Consequência? Sua exacerbação da falta de paciência. 

"Faça o que eu falo mas não faça o que eu faço" é uma frase que, infelizmente, está mais presente na vida de muitas famílias do que podemos supor. Por isso, a qualidade na maneira como cada um dos pais vive a própria vida, como cada um cuida de sua saúde psíquica, pode ser determinante no comportamento de seus filhos. Vivemos numa época muito delicada, caracterizada pela psicóloga Marcia Neder como sendo a era da pedocracia. Ou seja, o poder nas mãos das crianças. Se não olharmos para as nossas próprias frustrações nos papéis que assumimos, dificilmente seremos capazes de frustrar nossos filhos. Assim eles se tornam reis dominando seus pais. Aquela função que começamos a exercer junto com a notícia de que "seremos pais" fica impossibilitada quando deixamos a autoridade de lado. Nossos filhos se tornam órfãos e a retribuição negativa pela ausência paterna e materna inevitavelmente virá.


terça-feira, 31 de março de 2015

Acordo e não sou nada: Bom dia Vaidade!

Assisti algumas vezes o historiador Leandro Karnal falar sobre os pecados capitais. Vendo mais uma vez seu vídeo, decidi escrever sobre a vaidade como sendo o maior vício contemporâneo. Para iniciar a reflexão redigirei a fala de Karnal.

"Nós não concertamos mais as coisas e nós não concertamos mais as relações humanas. Nós trocamos. Ao trocar sapatos, computadores e pessoas que amamos por outras pessoas, vamos substituindo a dor do desgaste pela vaidade da novidade. Ao trocar alguém creio imediatamente "eu me torno alguém mais interessante" e, não percebo que aquele espelho continua sendo o drama da minha vaidade. O que eu não tolero na pessoa anterior é que ela me mostrou o quanto estou decaindo e envelhecendo ou sou desinteressante. Na nova pessoa eu exploro o quanto quero ser interessante, instigante e assim por diante". 

Falar da vaidade como possibilidade de excluí-la de nossas vidas é substituí-la pela moral religiosa da humildade e como diz Leandro, a humildade não é bem vista nos dias atuais. Além disso, a extrema humildade é também uma vaidade. 

O dilema atual da vaidade é a comparação. Vivemos nos comparando aos outros e isso faz com que a vaidade se sobressaia mascarada por uma boa auto-estima. Sou mais do que o outro, me esforcei mais, acreditei no meu potencial. Coloco e classifico as pessoas de acordo com o que eu sou, a posição que alcancei. Assim olho para os que estão "abaixo" de mim e cresço para me fortalecer no que sou. Olho para os que estão acima e pouco reflito sobre o que preciso fazer para alcançá-los, simplesmente ajo. A insatisfação constante disfarçada na ânsia de ser alguém melhor, faz com que se corra o grande risco de: "tudo vale na corrida para ser alguém visível." Que alguém é esse tão almejado? Caminhamos em qual direção? Que tudo é esse que vale mais do que encarar a si mesmo nos seus próprios aspectos desinteressantes? Ninguém pode ter tudo. Ninguém pode ser tudo. Ninguém é tudo. Nada é tudo. Tudo não é nada.  

Estamos criando crianças com boa auto-estima ou vaidosas e com pouco contato na relação humana? Ensinamos o descarte ao invés da tolerância? O ensino e o modelo me parecem estar mais próximo do desvencilhar. Tudo que exige aguentar e suportar se depara com uma saída bem confortável, fugir.  A fuga é do que? É de quem? Mas, como falar em criar crianças se vivemos num mundo modelo onde temos que ser visivelmente aceitos e admirados? Temos que superar o outro. Que necessidade é essa onde o descarte se torna a solução? Que caminho é esse onde a vaidade exacerbada é virtude? Por onde andamos quando decidimos não escutar? Que trilha é essa que percorremos na necessidade da nossa dor e da nossa conquista ter que ser maior e mais valorosa do que a do próximo? 

Como disse Fernando Pessoa em Orgulho e Vaidade: "O orgulho é a consciência (certa ou errada) do nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência do nosso próprio mérito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser — pois tal é a natureza humana — vaidoso sem ser orgulhoso. É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência do nosso mérito para os outros, sem a consciência do nosso próprio mérito. Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma. Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação".


Por onde anda a vaidade? Em qual degrau está em nossas vidas? Como nos relacionamos com ela? Eis a questão!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Decepção, muito prazer!

Decepcionar-se! Onde começa a decepção? Esse sentimento tão forte e avassalador que aparece na surdina, tem um poder gigantesco sob muitas pessoas, talvez a maioria, talvez todas. O que fazemos quando somos o próximo da vez? Será mesmo que a decepção é algo pontual e trágico? Será que as pequenas decepções não seriam alertas de que nada nesse mundo está sob o domínio ou nosso conhecimento? Decepções pequenas, simples, do dia a dia.  Você prova aquele doce tão desejado e o sabor imaginado é melhor que o real. A expectativa de conhecer uma nova pessoa e não ser muito bem aquilo que a rede social mostrou. Mas pouco aprendemos com esses sinais, precisamos de fortes decepções. Essas possuem um poder grandioso de nos colocar numa posição mais humilde na vida, a posição de que não nos conhecemos como imaginamos. O problema é que normalmente não aparece a humildade em reconhecer que o maior gerador da ilusão foi você próprio. Com isso, o que surge é a raiva direcionada ao outro. 

O causador de decepção carrega uma imagem boa, quase perfeita para aquele que o admira e o trás num lugar de valor. O ser admirado se torna um campo seguro, um lugar aconchegante. O seu admirador não percebe que deixa de lado algo de extrema importância, a certeza de que nada sabemos e que pouco podemos fazer com relação a vida e o desejo do parceiro. Enfim, é a prova pura para enfrentar a realidade pouco "segura" da vida. Pouco sabemos sobre o outro, sabemos aquilo que nossos olhos conseguem detectar, mas isso está muito longe de ser a pessoa. Quando temos certeza de que conhecemos plenamente aquele que está ao meu lado, simplesmente mato toda a possibilidade de uma nova pessoa surgir. E talvez aquele que eu "conhecia" precisasse se emancipar. Assim, cabe a cada novo ser buscar a sua maneira de conseguir a liberdade diante das correntes do outro. O que nos resta diante disso é um olhar aberto para que o outro se apresente, no entanto, o caminho a enredar é o simples e penoso conhecer a si-mesmo. As minhas expectativas dizem muito do que sou. 

O que fazemos para nos colocar em condições tão vulneráveis ou ainda,  por que insistimos em idealizar o outro a ponto de mal enxergarmos que somos capazes de criar o parceiro de acordo com nossas próprias expectativas? Que ponto cego em nós busca tanto a falsa segurança no outro? Que desejo é esse desenfreado de achar que não podemos nos decepcionar? Por que insistimos em colocar a decepção como sendo responsabilidade de quem a causou? Não seria a própria cegueira a responsável por tamanha idealização?  O maior ressalve pela decepção não é aquele que causa, mas sim aquele que permitiu causar em si a idealização irreal. 

O idealizado deseja o olhar admirado e alguma submissão velada acaba sendo exigida. Por outro lado, idealizar o ser amado e esperar que cumpra o prometido diante de seus olhos é exigir que ele se mate. A morte de ambos acontecerá inevitavelmente, simultaneamente. O admirado assim como o admirador são incapazes de suprirem a si mesmos. E a grande questão fica: não seria a idealização uma voz que diz mais de si do que do outro? 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O sentimento é seu aliado ou oponente?

"A grande infelicidade da nossa cultura é o fato de sermos estranhamente incapazes de perceber os nossos próprios sentimentos, quer dizer, sentir as coisas que nos dizem respeito. Vemos com tanta frequência pessoas passarem por cima de acontecimentos ou experiências sem perceberem o que de fato ocorreu com elas. Pois não percebem que têm uma reação de sentimento. Na maior parte das vezes sentem apenas o que chamamos de afeto, uma emoção acompanhada de sintomas fisiológicos colaterais. Quer dizer: uma atividade cardíaca aumentada, uma respiração acelerada, fenômenos motores - é isso que sentem. Mas quando se trata de uma reação de sentimento, muitas vezes nem o percebem, pois a reação de sentimento não vem acompanhada de fenômeno psicofísicos". (C.G.JUNG, Sobre sentimentos e a sombra)

Interessante refletirmos sobre essa passagem do texto de Jung. Conseguimos de fato dar atenção ao que sentimos? É com muita frequência que diante de situações "problemas" reagimos sem nem sequer notarmos o motivo pelo qual tivemos tal atitude. Diante de uma fala torta, de um tom de voz alterado, de uma expectativa frustrada temos uma reação de contra-ataque. No entanto, nos enganamos quando dizemos que tal sentimento, seja de raiva, de indignação, foi o motivador de tal atitude. Será mesmo que estamos próximos do que sentimos?

É natural o comportamento reativo, mas não podemos dizer que ele nos traz clareza de algo em nós. A reação é em decorrência de algum sentimento afetado que não foi devidamente olhado. Quando conseguimos identificar por trás da reação o sentimento que foi machucado, podemos com mais veracidade resolver o problema em si e com o outro. 

Quantas vezes, frente a algum incômodo, você parou para prestar atenção ao seu sentimento? Quantas vezes percebeu que a atitude do outro trouxe alguma informação desconhecida sobre você? Não é pensar na frase mais corriqueira que "aquilo que está no outro está em você", é ir além. É perceber que a ação do outro, que gerou sua reação, te trouxe um sentimento desconhecido sobre você. Nem sempre o que a pessoa te faz diz respeito ao que você é, mas pode trazer elementos do que você sente. Quando se percebe o que sente é possível notar a reação diante desse sentimento. Será então que a reação é para responder ao outro ou seria para proteger tal sentimento de vir à tona? Seria possível a indagação: o que estou sentindo? 

Em que lugar posicionamos nossos sentimentos? São nossos oponentes ou possíveis aliados na jornada da individuação? 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O novo ano realmente existe?

Metas, metas e metas. Começamos o ano com uma infinidade de metas. No entanto, o que de fato representam em nossas vidas? Com frequência temos sido invadidos por uma torrente de selfies. Que necessidade é essa de paralisar uma imagem produzida de si? Seriam as metas algo próximo a esse olhar? 

O início de cada ciclo traz consigo a ideia fixa de mudança. Com sentimento pertinente e persistente de esperança, uma motivação alucinada em mudar atitudes, comportamentos, pensamentos, namorado, vida, profissão. Num passe de mágica tudo, a partir do momento em que fixo algo em mim, pode mudar. Mas as metas são uma necessidade ou mais uma repetição de algo que não correspondo no mundo? Essa super excitação com desejo desenfreado de torna-se diferente, e ao mesmo tempo exemplo de superação, não seria uma fixação narcisista? 

Não me canso de deparar com metas, listas com itens adicionais e pouquíssima reflexão. Toda justificativa gira em torno de "quero ser saudável", "quero correr", "preciso me alimentar melhor", "serei meu próprio chefe", "quero um novo amor, mas esse vai ser diferente", "yoga", "Pilates", "meditação", "zumba", "dança dos famosos, ops, quer dizer, dança de salão" e mais um tanto de falas reproduzidas sem nenhuma reflexão. O que tem acontecido nesse tsunami de deveres sem sentido real? Muitos levam a vida na expectativa de corresponder o olhar do outro. Acreditam nas metas como sendo suas e ao se deparar com uma pergunta simples como: o que te levou a escolher esse caminho? Ou ainda: o que você espera desse encontro com essa meta? Um silêncio abismal aparece e logo uma mudança de fala. 

As pessoas se perderam de si e acreditam piamente que encontrarão num selfie parte ou algum ângulo que passou despercebido no espelho. Talvez precisassem fazer mais raio-x ou ressonância para quem sabe compreenderem que algo dentro precisa ser notado, ouvido, pensado, criticado, elogiado e principalmente conhecido. 

Enfim, ironias a parte, pode ter parecido um desabafo. Na verdade não é um texto onde quero desafogar ou incentivar as pessoas a procurarem terapia. É somente um questionamento: começarei um ano a partir de 2014 como uma linha reta ou como uma página virada? Página virada a gente só consegue quando algo de nós realmente transcende e não quando jogamos o calendário velho fora. 

Pensemos um pouco: partimos dia 1º de janeiro de 2015 de um novo lugar ou do mesmo lugar que estivemos em 1º de janeiro de 2014?