A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

terça-feira, 31 de março de 2015

Acordo e não sou nada: Bom dia Vaidade!

Assisti algumas vezes o historiador Leandro Karnal falar sobre os pecados capitais. Vendo mais uma vez seu vídeo, decidi escrever sobre a vaidade como sendo o maior vício contemporâneo. Para iniciar a reflexão redigirei a fala de Karnal.

"Nós não concertamos mais as coisas e nós não concertamos mais as relações humanas. Nós trocamos. Ao trocar sapatos, computadores e pessoas que amamos por outras pessoas, vamos substituindo a dor do desgaste pela vaidade da novidade. Ao trocar alguém creio imediatamente "eu me torno alguém mais interessante" e, não percebo que aquele espelho continua sendo o drama da minha vaidade. O que eu não tolero na pessoa anterior é que ela me mostrou o quanto estou decaindo e envelhecendo ou sou desinteressante. Na nova pessoa eu exploro o quanto quero ser interessante, instigante e assim por diante". 

Falar da vaidade como possibilidade de excluí-la de nossas vidas é substituí-la pela moral religiosa da humildade e como diz Leandro, a humildade não é bem vista nos dias atuais. Além disso, a extrema humildade é também uma vaidade. 

O dilema atual da vaidade é a comparação. Vivemos nos comparando aos outros e isso faz com que a vaidade se sobressaia mascarada por uma boa auto-estima. Sou mais do que o outro, me esforcei mais, acreditei no meu potencial. Coloco e classifico as pessoas de acordo com o que eu sou, a posição que alcancei. Assim olho para os que estão "abaixo" de mim e cresço para me fortalecer no que sou. Olho para os que estão acima e pouco reflito sobre o que preciso fazer para alcançá-los, simplesmente ajo. A insatisfação constante disfarçada na ânsia de ser alguém melhor, faz com que se corra o grande risco de: "tudo vale na corrida para ser alguém visível." Que alguém é esse tão almejado? Caminhamos em qual direção? Que tudo é esse que vale mais do que encarar a si mesmo nos seus próprios aspectos desinteressantes? Ninguém pode ter tudo. Ninguém pode ser tudo. Ninguém é tudo. Nada é tudo. Tudo não é nada.  

Estamos criando crianças com boa auto-estima ou vaidosas e com pouco contato na relação humana? Ensinamos o descarte ao invés da tolerância? O ensino e o modelo me parecem estar mais próximo do desvencilhar. Tudo que exige aguentar e suportar se depara com uma saída bem confortável, fugir.  A fuga é do que? É de quem? Mas, como falar em criar crianças se vivemos num mundo modelo onde temos que ser visivelmente aceitos e admirados? Temos que superar o outro. Que necessidade é essa onde o descarte se torna a solução? Que caminho é esse onde a vaidade exacerbada é virtude? Por onde andamos quando decidimos não escutar? Que trilha é essa que percorremos na necessidade da nossa dor e da nossa conquista ter que ser maior e mais valorosa do que a do próximo? 

Como disse Fernando Pessoa em Orgulho e Vaidade: "O orgulho é a consciência (certa ou errada) do nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência do nosso próprio mérito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser — pois tal é a natureza humana — vaidoso sem ser orgulhoso. É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência do nosso mérito para os outros, sem a consciência do nosso próprio mérito. Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma. Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em ação".


Por onde anda a vaidade? Em qual degrau está em nossas vidas? Como nos relacionamos com ela? Eis a questão!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Decepção, muito prazer!

Decepcionar-se! Onde começa a decepção? Esse sentimento tão forte e avassalador que aparece na surdina, tem um poder gigantesco sob muitas pessoas, talvez a maioria, talvez todas. O que fazemos quando somos o próximo da vez? Será mesmo que a decepção é algo pontual e trágico? Será que as pequenas decepções não seriam alertas de que nada nesse mundo está sob o domínio ou nosso conhecimento? Decepções pequenas, simples, do dia a dia.  Você prova aquele doce tão desejado e o sabor imaginado é melhor que o real. A expectativa de conhecer uma nova pessoa e não ser muito bem aquilo que a rede social mostrou. Mas pouco aprendemos com esses sinais, precisamos de fortes decepções. Essas possuem um poder grandioso de nos colocar numa posição mais humilde na vida, a posição de que não nos conhecemos como imaginamos. O problema é que normalmente não aparece a humildade em reconhecer que o maior gerador da ilusão foi você próprio. Com isso, o que surge é a raiva direcionada ao outro. 

O causador de decepção carrega uma imagem boa, quase perfeita para aquele que o admira e o trás num lugar de valor. O ser admirado se torna um campo seguro, um lugar aconchegante. O seu admirador não percebe que deixa de lado algo de extrema importância, a certeza de que nada sabemos e que pouco podemos fazer com relação a vida e o desejo do parceiro. Enfim, é a prova pura para enfrentar a realidade pouco "segura" da vida. Pouco sabemos sobre o outro, sabemos aquilo que nossos olhos conseguem detectar, mas isso está muito longe de ser a pessoa. Quando temos certeza de que conhecemos plenamente aquele que está ao meu lado, simplesmente mato toda a possibilidade de uma nova pessoa surgir. E talvez aquele que eu "conhecia" precisasse se emancipar. Assim, cabe a cada novo ser buscar a sua maneira de conseguir a liberdade diante das correntes do outro. O que nos resta diante disso é um olhar aberto para que o outro se apresente, no entanto, o caminho a enredar é o simples e penoso conhecer a si-mesmo. As minhas expectativas dizem muito do que sou. 

O que fazemos para nos colocar em condições tão vulneráveis ou ainda,  por que insistimos em idealizar o outro a ponto de mal enxergarmos que somos capazes de criar o parceiro de acordo com nossas próprias expectativas? Que ponto cego em nós busca tanto a falsa segurança no outro? Que desejo é esse desenfreado de achar que não podemos nos decepcionar? Por que insistimos em colocar a decepção como sendo responsabilidade de quem a causou? Não seria a própria cegueira a responsável por tamanha idealização?  O maior ressalve pela decepção não é aquele que causa, mas sim aquele que permitiu causar em si a idealização irreal. 

O idealizado deseja o olhar admirado e alguma submissão velada acaba sendo exigida. Por outro lado, idealizar o ser amado e esperar que cumpra o prometido diante de seus olhos é exigir que ele se mate. A morte de ambos acontecerá inevitavelmente, simultaneamente. O admirado assim como o admirador são incapazes de suprirem a si mesmos. E a grande questão fica: não seria a idealização uma voz que diz mais de si do que do outro?