A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Meus detalhes!

O ano chegou ao fim e mais uma reflexão venho compartilhar. Logo completarei sete anos de dedicação à esse blog que tanto me preenche, me direciona e traz sentido pessoal e profissional.  Foram mais de 70 reflexões compartilhadas e muitos muitos frutos colhidos nesse plantio, frutos dos quais nunca imaginei alcançar. Mas que frutos foram esses? Os detalhes! 

Cada um sabe do esforço dedicado a algo de profundo valor, muitas vezes esse valor não é divulgado ou nem sequer reconhecido como valoroso, mas ele nos traz algo a mais. Detalhes profundamente significantes que dão a cor e o tom da nossa caminhada. São os detalhes que nos dizem se estamos no nosso melhor trajeto. O detalhe do que sentimos no coração, o detalhe de suportar a quebra da imagem, o detalhe em reconhecer que você pode alcançar muitas pessoas mas nem sempre aquelas que você deseja. O detalhe em saber reconhecer o valor que ninguém enxergou mas que de alguma forma o universo veio te trazer e te disse ao pé do ouvido: é por aí! E você vai. Vai cegamente na confiança de que está no caminho certo pois esses singelos detalhes te dão a força e a coragem, a sabedoria do silêncio e a percepção da fala. 

Os detalhes podem funcionar em nós como grandes indicadores nas relações com o mundo. Quando nos dedicamos a eles nos reconhecemos em lugares insólitos, ouvimos vozes diferentes, sentimos coisas distintas e nos arriscamos a mudar o trajeto. Não mudamos somente o trajeto concreto do dia a dia, uma mudança de emprego, de casa, de relacionamento, cidade ou país, mudamos o trajeto da nossa vida interna e consequentemente nos apresentamos ao mundo como uma outra pessoa. Talvez tenhamos feito uma viagem sabática sem tirar os pés da nossa própria cidade, mas conseguimos explorar uma parte do mundo interno, conseguimos ir além das nossas fronteiras. A maneira como sentimos e nos direcionamos, brigas nas quais entramos e aquelas que relevamos, as pessoas com as quais ficamos e as que nos distanciamos, o lugar interno no qual fincamos os pés e onde abrimos mão de existir. 

Há algum tempo escrevi um desabafo no meu sigiloso "caderninho" e eis que agora sinto ser o momento de compartilhar. Não é nenhum texto super elaborado, é só mais um momento que coloco tudo que sinto profundamente em um pedaço de papel. Mas agora, dia 28 de Dezembro de um ano coletivamente pesado, resolvo dividir o pensamento  "A mudança". 

"Tem horas nessa vida que tudo muda. Muda tanta que você não sabe nem por onde começará a mudança. Mas ela muda. Muda de direção, muda o caminho, volta, retorna mais um pouco e depois prossegue para um lugar nunca antes visto. Essa mudança acontece todos os dias e nesse exato momento tudo mudou. Mudou tudo novamente e, a mudança continua, mexe, chacoalha, sobe e desce. Tudo muda o tempo todo. Tudo muda a toda hora. Meu olhar muda, meu corpo muda, meus pensamentos mudam, meu coração muda. Até a maneira de se calar muda. Tudo está em mudança constante. Por que insistimos então em desejar que a mudança seja branda, suave e com menos impactos? Nenhuma mudança é capaz de ser sutil. Mudar para mudar. Tudo muda e mudar é a melhor mudança que existe." 

Vamos reverenciar a mudança em nós e no mundo. Que venha 2017! 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Meu filho é um Youtuber. Palmas! Será?


Qual o limite da exposição dos nossos filhos na internet? As redes sociais estão aí e fazem parte da vida de muitas pessoas. Mas será que a exposição dos filhos, de crianças em canais do YouTube não tem demonstrado um excesso dos pais? Será que produzir crianças para serem as novas revelações youtubers não demonstra uma certa inocência das possíveis consequências desse ato? 

Muitos pais produzem seus filhos para serem celebridades afinal, são tão desenvoltos, tem tanto traquejo, ou ainda, são tão desinibidos, tão criativos e observadores. Não seria essa uma das grandes qualidades dessa nova geração? Sendo assim, seu filho é realmente alguém fora da curva? Essas têm sido características corriqueiras dessa linhagem. 

Então vamos lá! Em 2014 li uma reportagem na Folha de São Paulo sobre a exposição na internet de crianças. Eis que a professora Belinda Mandelbaum do IP (Instituto de Psicologia da USP) disse:

"A internet pode ser um bom canal para que familiares distantes acompanhem o desenvolvimento da criança, por exemplo, mas também pode ser usada para prática exibicionista, talvez até de competição entre os pais." E acrescentou: "É possível [que a exposição excessiva cause] uma insuflação do narcisismo da criança - é como se tudo o que ela faz fosse digno de registro". *

Me assustei com a quantidade de crianças nos canais do YouTube. O que elas apresentam para outras crianças? São dons? São criações? Não! Apresentam os mais novos bens adquiridos. Brinquedos, roupas, sapatos, mais e mais brinquedos. O que estão fazendo com essas crianças? Não seria uma forma essa de dizer: "Meu filho você é ótimo, sabe se comunicar. Então vamos lá porque tudo que você é, é o que você tem". Não é essa mensagem? O que as outras crianças que assistem a isso estão buscando? Novos brinquedos? São essas as inspirações que você realmente deseja que seu filho dê? Quantos views ele ganhou? Ele realmente sabe a importância disso? Não seria uma forma do adulto conseguir patrocinadores em cima da "desenvoltura" da criança? Vamos além. Crianças se expondo na rua pedindo dinheiro para COMER. Esses mesmos adultos dizem: não dou dinheiro porque, por trás dessa criança tem alguém se aproveitando dela. Essas práticas são tão diferentes assim? 

Obviamente que a criança de rua não tem alternativa, aquela é a realidade dela e isso dói. Mas a atitude que recrimina a criança que tem fome é a mesma atitude que apoia o consumismo exacerbado e exibido da crianças de barriga cheia. Definitivamente, exibir um filho pequeno consumindo e valorizando bens é um crime. E esses pais não fazem ideia do impacto que isso pode ter na formação da identidade dessas crianças. Não fazem ideia do adulto que virá. 

Em contrapartida, vimos esse mês uma menina de 11 anos com seu blog, produzindo muito. Produzindo muito mesmo. Uma menina criativa, com impulsos ricos de mostrar ao mundo o que é seu mundo de riquezas através de histórias e poesias. A internet sendo usada, uns com fins valorosos, outras com fins destrutivos. Seu filho está tomando qual caminho? Ou melhor, você papai e mamãe estão o guiando para qual direção? 

Educar nos tempos de hoje tem sido algo extremamente difícil, muitas direções e poucas orientações. Educar é uma arte que pode promover ou destruir. Estamos fazendo o que com os nossos queridos e amados filhos? 


*Reportagem Folha: https://goo.gl/O1N1qk




quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A bolinha dourada.


Esse mês ouvi uma voz. Não foi uma voz qualquer, foi uma voz que veio ao mundo depois de mais de meio século. A voz de uma mulher, contida, reprimida, com desejos julgados e nem sequer olhados. A voz de uma mulher cansada de ser subserviente a um pai, a um conceito religioso, a um marido e um modelo de mulher recatada. A questão foi que escutei um pouco mais, escutei essa voz mas não sei ao certo o quanto ela escutou. 

Tudo começou com um brinco. Tantos anos desejando um brinco e por obediência aos homens e deuses não tinha forças para ir além. Mas isso estava com os dias contados. Ela furou. Não furou só a orelha, furou a barreira, viu a verdade do outro como uma furada. Ela furou, furou e furou. Mas tudo ali tinha um limite, me doeu ver o limite de seu próprio desejo. O pai não poderia jamais ver o furo, sabia da impossibilidade disso e ao escolher seu brinco mais lindo, caiu naquela bolinha pequena,ouro brilhante de um bebe. Tudo tem um limite na Alma dessa mulher de mais de cinquenta anos. 

Fiquei com ela o tempo todo e só agora, muito próximo da virada do mês consegui sentar e escrever. Quantas almas embotadas, quantas almas aprisionadas sem nem sequer serem percebidas por si mesmas. Quantas almas adoecidas com o olhar convicto de uma saudável maneira de viver. Vivemos numa alienação plena. Isso muito me angustia. Olho nos olhos dessa mulher e sinto que sua dor nem sequer é percebida. Olho profundamente nos olhos dessa mulher, que támbem cria uma filha e tem orgulho de uma adolescente ser mais parecida com uma criança. Ali, dois femininos morrendo. No leito da própria morte algo gritou e furou mas um outro lado, da própria morte, vê tudo se definhar. 

Confio na vida, confio que em algum momento outro furo virá, mas, será que o próximo furo não será acompanhado de mais um brinco de bebe? Como está difícil poder existir em um mundo tão repressor com ares de liberdade falsa. Como está difícil seguir adiante se os próprios discursos não são nada próprios. Como está difícil encontrar pássaros presos, com asas machucadas e achar que só porque cantam, são livres de Alma. Estamos nos enganando e acreditando nesse engano. 

"E, antes de aprender a ser livre, eu aguentava - só para não ser livre" - Clarice Lispector 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O que está te comendo?

E como não notar que situações corriqueiras são capazes de nos engolir? O que nos "come" diariamente sem percebermos? A metáfora usada hoje é o alimentar-se. Constantemente escolhemos o que ingerir, seja ele doce, salgado, leve, pesado, refrescante, quente, estamos constantemente decidindo o que vamos colocar para dentro. 

Um ditado budista diz o que seguinte: "A lei da mente é implacável. O que você pensa, você cria; O que você sente, você atrai; O que você acredita, torna-se realidade".O que você permite entrar, será consequência do que você vibrará. São muitos os alimentos que consetimos entrar. Vamos olhar com cuidado. 

Têm momentos que engolimos raiva, engolimos tristeza, engolimos dor, engolimos extrema felicidade, engolimos expectativas, decepções, medos, frustrações, engolimos o tempo todo. Até aqueles que dizem: "Não engulo nada. Falo mesmo!" Nada mais são do que pessoas que permitiram algo entrar, passou pelo sistema digestivo e ao cair mal, foi devolvido. O vômito é resquício de um mal estar, nem sempre alivia. Assim como a indigestão não é algo bom de se sentir.

Como identificar os limites de cada alimento que se candidata a entrar? Como elaborar, discriminar e decidir por quais alimentos você não sentirá nem o cheiro? Qual o tamanho do seu prato e quantas garfadas você é capaz de dar em uma única refeição?

A percepção humana pode ser muito extensa. Olhar atentamente antes de ir logo enfiado para dentro. Sentir seu corpo profundamente. Seu coração, a velocidade da respiração. Esses são aspectos, indícios se aquele alimento deverá entrar ou não. Vômitos não resolvem, deixam o mal estar presente. A fome também não resolve. Mas a percepção do corpo, o cuidado com a sua própria casa sim. Têm horas que a privação é o melhor remédio, tem horas que você precisa se saciar. O respeito com você é sem duvida o melhor caminho para comer bem. Aí você decide: O que você vai comer? ou O que é que vai te comer?

Têm momentos na vida que precisamos de voracidade, e aí tudo entra e a satisfação é plena. Enriquece, você se sente realmente bem. Mas existem situações em que apenas um grão pesa muito. Como reconhecer o que está nos comendo? Como encarar esse monstro que simplesmente entra e ocupa uma parte significativa da sua existência? Essa dieta psiquíca é fundamental. Quando digo dieta, falo da necessidade da escolha real, da escolha mais profunda, das suas necessidades mais verdadeiras. Quando começamos a compreender e reconhecer a existência de alimentos que nos preenche,  saberemos em quais ambientes poderemos encontrar. Nesse momento, a refeição está por sua conta. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Decepção, muito prazer!

Decepcionar-se! Onde começa a decepção? Esse sentimento tão forte e avassalador que aparece na surdina, tem um poder gigantesco sob muitas pessoas, talvez a maioria, talvez todas. O que fazemos quando somos o próximo da vez? Será mesmo que a decepção é algo pontual e trágico? Será que as pequenas decepções não seriam alertas de que nada nesse mundo está sob o domínio ou nosso conhecimento? Decepções pequenas, simples, do dia a dia.  Você prova aquele doce tão desejado e o sabor imaginado é melhor que o real. A expectativa de conhecer uma nova pessoa e não ser muito bem aquilo que a rede social mostrou. Mas pouco aprendemos com esses sinais, precisamos de fortes decepções. Essas possuem um poder grandioso de nos colocar numa posição mais humilde na vida, a posição de que não nos conhecemos como imaginamos. O problema é que normalmente não aparece a humildade em reconhecer que o maior gerador da ilusão foi você próprio. Com isso, o que surge é a raiva direcionada ao outro. 

O causador de decepção carrega uma imagem boa, quase perfeita para aquele que o admira e o trás num lugar de valor. O ser admirado se torna um campo seguro, um lugar aconchegante. O seu admirador não percebe que deixa de lado algo de extrema importância, a certeza de que nada sabemos e que pouco podemos fazer com relação a vida e o desejo do parceiro. Enfim, é a prova pura para enfrentar a realidade pouco "segura" da vida. Pouco sabemos sobre o outro, sabemos aquilo que nossos olhos conseguem detectar, mas isso está muito longe de ser a pessoa. Quando temos certeza de que conhecemos plenamente aquele que está ao meu lado, simplesmente mato toda a possibilidade de uma nova pessoa surgir. E talvez aquele que eu "conhecia" precisasse se emancipar. Assim, cabe a cada novo ser buscar a sua maneira de conseguir a liberdade diante das correntes do outro. O que nos resta diante disso é um olhar aberto para que o outro se apresente, no entanto, o caminho a enredar é o simples e penoso conhecer a si-mesmo. As minhas expectativas dizem muito do que sou. 

O que fazemos para nos colocar em condições tão vulneráveis ou ainda,  por que insistimos em idealizar o outro a ponto de mal enxergarmos que somos capazes de criar o parceiro de acordo com nossas próprias expectativas? Que ponto cego em nós busca tanto a falsa segurança no outro? Que desejo é esse desenfreado de achar que não podemos nos decepcionar? Por que insistimos em colocar a decepção como sendo responsabilidade de quem a causou? Não seria a própria cegueira a responsável por tamanha idealização?  O maior ressalve pela decepção não é aquele que causa, mas sim aquele que permitiu causar em si a idealização irreal. 

O idealizado deseja o olhar admirado e alguma submissão velada acaba sendo exigida. Por outro lado, idealizar o ser amado e esperar que cumpra o prometido diante de seus olhos é exigir que ele se mate. A morte de ambos acontecerá inevitavelmente, simultaneamente. O admirado assim como o admirador são incapazes de suprirem a si mesmos. E a grande questão fica: não seria a idealização uma voz que diz mais de si do que do outro? 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Ei! Vez! Sente aqui!

Por Camila M. Polonio

Sentei para escrever mais uma vez. Aqui escrevo o que quiser. Diante dessa folha de papel, escrevo o que quiser. Mil vezes, escrevo mil vezes exatamente o que eu quiser. E se quiser escrever mil vezes, Vez? Escreverei mil vezes.  Vez, vez, vez, vez, vez, vez, vez. Vejam, quantas vezes posso escrever vez? Mil vezes Vez.

Se eu quiser pensar? Posso pensar o que quiser. Posso pensar tudo o que eu quiser. Em todos os lugares, em cada momento, meu pensamento pode fazer o que quiser. Pensarei mil vezes o que quiser. E se eu quiser pensar mil vezes em você Vez? Vez, vez, vez, vez. Vejam, quantas vezes posso pensar vez? Mil vezes Vez.

E se eu quiser falar? Posso falar o que quiser, posso falar exatamente o que eu quiser. Aos quatro cantos digo mil vezes o que quiser. Falarei mil vezes Vez. Vez, vez vez vez. Vejam, quantas vezes posso dizer vez? Mil vezes Vez.

Quantas vezes tive raiva de você? Não quis mais te ver nenhuma vez. Nem por um momento desejei que você voltasse a me atormentar Vez. Quanto você pode ser cruel, dolorida? Quantas vezes, mesmo não querendo, tive que te aturar mais uma vez? Às vezes você consegue ser insuportável e me fazer ter que te aguentar mais uma vez. Quantas vezes você me fez sofrer e ter que te olhar nos olhos por mais uma vez? Quantas vezes vou ter que te encontrar no seu pior papel Vez? Ai! Como dói ter que te ter mais uma vez nesse momento que só queria, com toda minha dor, com toda minha força, te fazer ficar o mais longe possível, mil vezes longe. Mas você volta né Vez? Volta! E quando finalmente te aceito, acabou minha vez. Você se foi, deixou marcas poderosas, marcas tão profundas que lembrarei de você muitas vezes. Não como daquela última vez, mas lembrarei mais uma vez.

Outras vezes chorei porque só queria te ter mais uma vez e de repente, você escorreu entre meus dedos e já era. Não haverá outra vez, a vez acabou, passou, se foi. Você morreu Vez? Não voltará? Que vez é essa que está por vir e me trazer outra vez algo que nem sequer sei que desejarei por outras tantas vezes? Muitas vezes te perco e fico sem chão, fico sem vez. Sei que precisa ir, sei que cumpriu sua função, mas que mal tem em desejar mais uma vez? Sonhar mais uma vez? Sofrer mais uma vez? Tocar mais uma vez? Abraçar mais uma vez? Sentir o cheiro, ouvir a voz mais uma vez? Querendo ou não Vez, você estará comigo, sempre perto de mim para  lembrar que não haverá mais nenhuma vez e que muitas vezes virão.

E lá no fundo de tudo que penso, escrevo e falo. Lá naquele lugar onde sou puramente eu, o que mais quero que grite em mim é poder te ter Vez. Que mil vezes faça parte de mim, que mil vezes ou que somente mais uma vez esteja aqui comigo. Me acompanhe mais uma vez. Você pode e é minha melhor companhia. Estou com você mais uma vez. Esteja comigo mais uma vez. Fique comigo mais uma vez. Me permita ser mais uma vez. Quero errar mais uma vez, acertar mais uma vez. Ei! Vez!. Estou aqui. Fique por mais um tempo

Disponível também no blog www.vasoliterario.blogspot.com

quarta-feira, 16 de março de 2016

Atenção! Sinal vermelho. Pare!

Qual grande cidade podemos citar que não ocupe bons momentos do nosso tempo atrás de outros veículos, sentindo o cheiro forte de gás carbônico? Estava em uma dessas filas com uns 10 carros à minha frente e lá bem próximo ao semáforo uma pessoa. Pessoas também fazem parte desse cenário com muitos carros à espera do sinal verde, só que esses esperam pelo sinal vermelho. O sinal vermelho está na vida dessas pessoas o tempo todo. 

Um grupo de carros partiu e foi minha vez de aproximar. Um homem com mais ou menos 1,90m, sem camisa e muito sorridente. Fazia gestos para todos os carros como quem pede uma moeda. Chegou ao meu lado, baixei o vidro e ele parou, baixou as mãos e me disse:

 -Senhora não vou te pedir nada quero só agradecer por ter baixado o vidro, você foi a primeira pessoa que falou comigo hoje. O sinal abriu eu fui, ele ficou. Não! O sinal abriu e eu fiquei. Fiquei com aquele rapaz na minha cabeça por dias, sinceramente, me lembro dele até hoje e meus olhos se enchem de lágrimas. O sinal vermelho está com ele a todo tempo e para tentar explicar ao mundo que só precisa de ajuda arrumou o seu jeito de falar. Naquela altura precisava gesticular cada vez mais para que notassem que não faria mal. Sem camisa corria o risco de aumentar o mal estar. Seu corpo atlético poderia causar mais medo. Mas talvez fosse mais um jeito de dizer: 

- Pessoal estou sem nada. Vejam! Nada! Não tenho nada! Não sou nada! Eu nos meus humildes 1,55m reagi a sua alegria mas ainda assim, aquele espanto em seu rosto ainda está aqui. 

O moço sem camisa, gigante, em sua miséria humana foi a pessoa mais importante que cruzou meu caminho esse ano. Não  quero entrar em longas discussões sobre segurança pública para justificar o isolamento e a segregação. Não vou entrar no mérito dos infindáveis assaltos que nos ameaçam todos os dias. Vou pensar, sentir e agir sobre o assalto que cometemos diariamente quando encontramos essas pessoas bloqueando nossa "PAZSSAGEM". O que roubamos deles? A vida, a significância, o direito de decidir o que fazer com a moeda que dei. Porque terei que ser eu a dizer para ele que o álcool lhe fará mal? Que pessoa má me torno quando decido que algo para o outro pode ser a primeira escolha para o seu próprio fim? O meu vidro fechado pode ser seu fim. Minha moeda pode ser seu caminho, mas meu bom dia pode ser um alento. Quem vive nessa vida sem alento? Quão mau posso ser quando resolvo assaltar, tirar, roubar do outro sua própria existência? Que direito tenho em dizer para ele que não é nada significante para mim? Como podemos mudar algo quando ainda insistimos em dizer alto e bom som que o mal está ali, do lado de fora do meu carro, do meu ar condicionado? Seria o caminho pensar na fala de Durkheim que diz ser a moral a ciência dos costumes? Não sei! O sinal verde permite a passagem mas talvez seja o momento de parar no sinal vermelho. 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Amanhã! Quem sabe algo sobre o amanhã?

"A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe. Há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda. Agora está sendo neste próprio instante. Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!" Clarice Lispctor 

Ansiar o futuro é o mal de muitos, sofrer por medos com relação ao amanhã é a dor dilacerante que corta a carne profundamente, arde, queima, desespera. Amanhã! Quem sabe algo sobre o amanhã? O controle de nossas vidas insisti em se fazer presente, tola ideia. Presença de algo ilusório que sufoca, aperta o peito, enche a cabeça de pensamentos, ideias, estratégias e um sono profundo e revitalizante se torna mero desejo para que, em algum dia, eu tenha o privilégio de desfrutar. 

Como viver em uma época tão acelerada e simplesmente se permitir um tempo, uma pausa, um acalmar a mente? Os consultórios médicos enchem-se cada vez mais, prescrições de ansiolíticos tem se tornado a salvação para aqueles que beiram o colapso. Onde estamos falhando? Quando o desejo de suprir as expectativas do outro, seja seu chefe, empresa, cônjuge, se torna tema e objetivo central percebemos que a vida vivida não é a nossa. A sensação de vazio se alastra e o preenchimento tem sido de maneiras descabidas, desconectadas sem nenhuma noção exata do que esse vazio precisa. 

Muitas práticas tem sido oferecidas, algumas prometem resultados imediatos. Precisamos ser tão rápidos quando o assunto é a nossa própria companhia? Meu filho de 3 anos e 8 meses estava irritado porque não queria brincar sozinho. Eu lhe disse: Meu filho você está brincando na melhor companhia. Ele ainda mais irritado me respondeu: -Estou sozinho, quero que brinque comigo. Sentei e contei que ele não estava sem nada, ele tinha a si mesmo. Esse é um reflexo no qual estamos extremamente acostumados. Não podemos ficar sós. Estar só é sem graça, eu não tenho nada de bom para me oferecer. Essa desconexão, que pode ser alimentada desde cedo, quando os pais não permitem que seus filhos fiquem em suas próprias companhias, é um sinal de que algo não anda bem. 

Mas, como serei diferente se o mundo me exige uma produtividade acelerada? Temos que tomar sérios cuidados quando questionamos essa prática atual. Cuidar para que essa não seja a saída para minha manutenção da aceleração. O mundo não irá mudar para te proporcionar esse momento. Certo dia uma paciente chegou ao meu consultório extremamente agitada, cansada, acelarada que mal conseguia falar. Aquele momento precisava ser de desaceleração. Ao se dar conta de que não havia sentado em sua poltrona desatou a chorar. O choro aliviou, o choro acalmou, o choro desacelerou e assim demos início, com total atenção a sua própria vida. Infelizmente esse tem sido o detalhe, atender a própria vida. 


domingo, 31 de janeiro de 2016

Quando o trabalho exauri.

O ano se inicia e as reclamações e indignações retornam ao seu lugar de origem, na boca de muitos profissionais - desde aqueles responsáveis por execução até os que se encontram envolvidos no planejamento estratégico das empresas. Para ilustrar o texto desse mês contarei (ficticiamente), mas baseado em muitas histórias, um encontro com esses que sofrem tanto em seu ambiente de trabalho. 

César, 38 anos, funcionário de uma grande indústria, chegou ao consultório por não saber mais lidar com seu chefe. Parte da sua insatisfação é ter que conviver com a ideia de que seu gerente é mais novo e imaturo. Os dois eram colegas de trabalho quando Rodrigo foi promovido a gerência de seu setor. O ocorrido não somente o desmotivou como também começou a pesar o fato de não ter sido enxergado por seus superiores em seus esforços naquela função. A história se desenrolou e as somatizações começaram  a fazer parte do seu dia a dia, dores pelo corpo, a cabeça virou sua inimiga e as noites em claro sua companheira fiel. Seu casamento foi afetado e desde então César não soube mais como lidar com suas emoções. 

Um clássico caso da atualidade. Como agir com todos esses afetos num meio onde se exige cada vez mais desempenho e alta performance? Várias literaturas dedicadas a inteligência emocional ocupam as prateleiras das livrarias. Em sua maioria, literaturas que auxiliam na clareza e na orientação de como amenizar os impactos emocionais dentro do ambiente de trabalho mas, às vezes isso não é o suficiente. Os problemas continuam em sua proporção máxima e assim batem na porta do meu consultório trabalhadores exauridos. 

Os afetos fazem parte da nossa rotina. Nos deparamos diversas vezes, em todas as fases da vida, com situações que nos colocam entre o conflito:  o que enxergo e não suporto conviver versus aquilo que enxergo e preciso aprender a  lidar. No ambiente trabalho esse dilema se instala com muita facilidade. Nesse momento precisamos trabalhar na ampliação da autoconsciência. O que acontece quando o impulso ou a paralização toma conta no momento em que os afetos se mostram intensos e desproporcionais? Em que lugar esse afeto está querendo se comunicar? A sensação de injustiça está nos mostrando algo que ao ser desvendado amplia a capacidade de relação com o "problema".

Quando estamos diante do espelho e enxergamos com nitidez todas as formas de manifestações dos afetos, começamos a dialogar com eles e o resultado começa a surgir. "Eu aprendi a perceber quando estou prestes a explodir", "Já sei que nesse momento é meu desejo de provar a verdade que está em jogo", "Já saquei a diferença entre um comportamento intencional e um não intencional", e assim por diante. 

Abrimos uma nova porta para que César se tornasse mais dono de suas emoções e mais próximo de si. Estamos em um momento histórico de muitas pressões onde fantasmas acompanham as paralizações e os impulsos de cada trabalhador. Em sua maioria, a sombra do desemprego se tornou a condutora da vida e isso pode ser um dos venenos ou o antídoto de muitos males que nos causamos.