A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Criança não namora: mais UMA regra pungente a imaginação infantil.


Pensei mil vezes antes de publicar esse texto, até ter uma experiência no Kindergarten do meu filho que trouxe a coragem de colocar a cara a tapa. Tenho certeza que inúmeras críticas virão mas tenho a intenção de trazer uma reflexão ao exagero das "regras ao mundo da fantasia infantil". 

Vou começar com algumas perguntas: o que acontece com a Bela e a Fera? Com a Cinderela? Com a Branca de Neve e a Rapunzel? E a Ana em Frozen? Poderia citar mais algumas princesas mas vou somente trazer uma pequena amostra. Todas se apaixonam e começam ali uma linda e eterna história de amor. Porque todos esses contos estão no imaginário das crianças? Simplesmente porque são saudáveis para o desenvolvimento. 

O que estamos fazendo quando lançamos a campanha "criança não namora"? Criança não namora, é claro que não! Essa é a campanha mais esdrulucha que já vi. Mas crianças tem príncipes e princesas, falam que são seus namorados e casados e vejo um monte de pais horrorizados. Mais uma pergunta: horrorizados com o que? Beijo na boca, sexo, sensualização estão na cabeça dos adultos e não das crianças. Essa literalização do namoro como namoro adulto não faz parte do mundo infantil e, adultos que incentivam esse tipo de relação precisam ser denunciados. Vejam que não sou a favor da erotização infantil e isso é responsabilidade dos pais checarem os assuntos que chegam até seus filhos. 

Já experimentaram perguntar para os pequenos o que é namorar? Provem e verão que está somente na cabeça dos adultos essa maldade tremenda. Mais um ponto importante: porque os pais que levantam essa bandeira levam seus filhos para acompanharem as sagas dos contos de fadas? Princesas, príncipes dançam, se apaixonam e as crianças brincam de príncipe e princesa. Vamos lá, as crianças brincam. O terror que estão colocando na infância por excesso de regras que massacram o imaginário infantil é extremamente danoso. 

Já havia saído do Brasil com esse pensamento e mil questionamentos com essa campanha. Eis que me deparei com algo curioso na Sommerfest no kindergarten. Eu mal havia chegado e não entendi quase nada do que estava sendo cantado. Quando cheguei em casa fiz a tradução e toda a encenação fez um grande sentido. O tema foi: O casamento das pombinhas. Arregalei os olhos pois alguma coisa ali me dizia que a neurose instalada no Brasil com as crianças está ultrapassando todos os limites, tem acontecido uma retaliação ao mundo imaginário. 

Para contextualizar, meu filho é da turma dos mais velhos, ou seja cinco anos. Começaram a cantar e celebrar o casamento das pombinhas onde duas crianças encenavam o ritual com direito a alianças. Fiquei de boca aberta. Sim! Crianças brincam de casar, crianças brincam de rituais e festejam a imaginação com muita alegria. Crianças brincam e adultos veem todos os problemas do mundo pois a mente está condicionada a isso e, infelizmente estão cada vez mais estritos as palavras, com dificuldades em adentrar ao mundo imaginativo. Que raios de campanha é essa? Alguém poderia me explicar? Nunca vi uma criança chegando em casa namorando alguém como os adultos. Mas vi muitas e muitas crianças sonharem que tem seus príncipes e princesas. Vamos deixá-las em paz. Vamos cuidar das nossas mentes para que nossas repressões não adoeçam ainda mais uma geração com muita regra enfadonha, muita digitalização e pouca oportunidade para imaginação. 

E para encerrar, nada melhor que uma citação de Monteiro Lobato. 
"A mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me" 


Vamos simplificar? 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Como sou Medíocre!

Essa semana assisti ao filme "Hannah Arendt", li o livro "O estrangeiro" de Albert Camus, semana passada alguns vídeos do Ariano Suassuna e fiquei com a sensação de que vivemos em uma mediocridade gigantesca. Nos reinventamos e cremos que estamos sendo individuais, mudamos de ideias e opiniões e ficamos convictos de que algo novo surgiu. Seria mesmo possível não estar massificado? Vejam que comecei o texto dando exemplos que posso não ser tão medíocre assim: que horror! Não vou apagar a minha mediocridade, ela está aí e tem sido minha convidada. 


Qual o tamanho da nossa cegueira? O que nos faz insistir olhar para as mesmas coisas exatamente do mesmo jeito? Porque tudo tem caído na normalidade? Que passividade é essa e com o que estamos sendo coniventes? Quais as decisões que tomamos e realmente acreditamos que não fazemos escolhas? As justificativas andam permeando demais a vida individual e consequentemente a vida coletiva.


O Brasil está caótico, o mundo em estado de alerta e nós, pessoas medíocres, continuamos a viver dia após dia. Pensamos, pensamos, discutimos virtualmente, rompemos relações - maioria virtuais - e levantamos bandeira de autocontrole e autoconhecimento. Procuramos soluções mágicas e temos certeza que não fazemos isso. Acreditamos em sentido de vida mas vivemos ainda na superfície do que nos é imposto como boa vida, social, ecológica, política e de preocupações. 


Somos mandados até no que temos que nos preocupar. O bem e o mal está a todo vapor conduzindo nossa existência. Ora em um pólo, ora em outro, vamos dançando conforme a música e nos iludimos com a sensação de que estamos com as rédeas em nossas mãos. 


Não sei se há muita saída para o que estamos vivendo quando decidimos ficar no meio, no esperado, no desejado, no direita e esquerda, na pouca reflexão. Até nossas reflexões precisam ser questionadas. O que refletimos é efetivamente nosso ou nos foi imposto de maneira sutil para que se torne mais uma preocupação que devemos ter? 


A palavra medíocre diz respeito ao que é mediano, comum. Porque olhamos para isso como algo negativo? Isso me chama atenção demasiada. Porque temos horror de estarmos na média? Que sentimento é esse que nos permeia e nos chama para sair do lugar comum? O que consideramos mediano?  Não será esse o anseio que nos leva de lá para cá? Não será esse o objetivo que nos conduz a grupos fechados de pessoas "aparentemente" fora da média? Quantas pessoas fora da média conhecemos? O que acontecerá se assumirmos nossa mediocridade e sentarmos à mesa com ela, olhar profundamente em seus olhos e questionar: onde está minha saída nisso tudo? 


A vida é isso aí mesmo? Somos todos iguais com discursos e rótulos semelhantes? Impulsos e abatimentos na mesma linha? Pode parecer pessimista demais, mas não ando vendo pessoas indivíduos, vejo pessoas em massa. 


"O que o move, move. O que o agrada, agrada. Seu gosto acertado, é o gosto do mundo" - Lessing apud Hannah Arendt - Homens em tempos sombrios.


Se baixamos a qualidade artística pela massificação, o que dirá o resto em nós? Cada um na sua própria massificação crendo que vive em um mundo de respeito a individualidade. Vivemos aí um individualismo massificado. Estou rindo de desespero até a próxima encarnação e me desconstruindo completamente sem saber onde isso vai parar. 


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ausência para uma outra presença.

Nossa que saudade! Fiquei ausente por muito tempo, mas isso tudo tem um motivo: a nossa mudança. Mudar de país não é tão simples quando precisamos desfazer de uma vida no Brasil. Faz dois meses que chegamos à Alemanha e só agora pude sentar e escrever. Ausência para uma nova presença. 


Não faço a menor idéia por quais caminhos irão minhas reflexões, muitas mudanças aconteceram e o olhar tem acompanhado isso.  Gostaria de trocar um pouco e tentar falar sobre o recolher a partir da minha experiência. Vocês vão me sentir mais perto. 


Recolhemos muitas vezes quando o inesperado aparece, recolhemos em casa, no quarto, embaixo das cobertas, recolhemos para dentro da gente. Sentimos medo e muitas vezes não sabemos o que fazer com isso. Não gosto de pensar que o medo é um sentimento de pessoas que não confiam na vida, não possuem fé, não se deixam levar ou até mesmo que são aprisionantes e aprisionadas. O medo é humano e a questão maior que fica é: como dialogar com esse medo? Muitos me perguntaram e me perguntam se tive medo nessa mudança e eu digo: por mim não tive medo algum, pelo meu filho tive todos os medos. Mas Camila você não confia? Confio demais, confio tanto que vim. Tenho um filho pequeno que não pode escolher e por ele tenho muitos medos. Tudo é uma questão de fé na vida, sei que irá passar e que logo estará integrado e dominando a língua local, mas até que isso aconteça preciso todos os dias lidar com a impotência. Me recolho no sentimento de impotência e consigo estar presente com ele. Sem desespero comecei a sentir e me colocar em lugares inimagináveis dentro de mim e do mundo. Como se sente um analfabeto no mundo? Agora eu sei um pouquinho. Como se sente com infinitos olhares de curiosidade e julgamentos sem a possibilidade de desfazer tais ideias? Eu sei um pouquinho. Como se sente uma pessoa que vive à margem da sociedade? Agora eu sei um pouquinho. Como se sente uma pessoa completamente dependente de alguém? Ah! Eu também sei um pouco. Como se sente uma pessoa que sofre preconceito? Estou começando a saber. 


Quem me conhece sabe que tenho um olhar positivo para a vida e que sempre busco o lado bom de tudo, por isso não vou ficar no relato sobre a forma como tenho conseguido ficar bem, porque eu, normalmente, fico bem nas adversidades. Isso é a fé na vida não forçada. Agora quero propor um encontro com esse sentimento de recolhimento por impotência. Quando nos recolhemos porque temos diversas situações na vida que nos abalam, ficamos um tempo pensando em nós. Tinha tudo para fazer disso, um prato cheio como diz minha mãe. Mas, como aprendi na vida, tem momentos que precisamos ressignificar. Por isso, me recolhi na impotência para pensar o mundo e me colocar nesse mundo. Como é difícil não conseguir ler, não conseguir se expressar, não conseguir se defender de olhares de julgamento e curiosidade. Como é difícil dizer para alguém que foi sem querer e nem a sua expressão ser capaz de dizer isso, afinal, as culturas são bem diferentes e por aqui não se sentem tanto como nós brasileiros. Como é difícil estar no parque e vivenciar a exclusão por preconceito e não ter ferramentas para tentar solucionar tal situação. É uma impotência tão grande e uma dor tão aguda que a vontade é sair correndo. Mas aí logo me coloquei como ser no mundo e senti, senti da pior maneira possível, o que é estar à margem pelo preconceito. 


No meio de tudo isso fiquei com o pensamento, como se sente um refugiado? Isso eu realmente não faço ideia. Deve ser algo terrível. É como viver dentro de uma grande prisão. Há uma busca de liberdade mas o preço é alto a se pagar. Você se torna livre e ao mesmo tempo está completamente aprisionado pelo olhar do outro. É viver o dia como se nunca fosse acabar, é perder todo o sentido e querer se trancar, é viver a liberdade sonhada numa cela trancada. 


O mesmo me questionei no polo oposto: como se sentem os alemães diante de tanta diferença cultural? Como se sentem quando vêem seu patrimônio sendo pixado, depredado e mal cuidado por pessoas que possuem dificuldades em lidar e respeitar as diferenças culturais? Estamos na casa deles, cautela e respeito precisam fazer parte. Mas muitos vivem num egocentrismo tão grande que realmente acham que o esforço e a mudança precisam vir dos alemães. Estava no parque e algumas crianças estrangeiras riscavam seus nomes em uma placa e nada foi feito pelos pais. Que costume é esse? Que direito temos de destruir? Ninguém tem o direito de nos destruir e não temos o direito de destruir nada. Pude em uma semana sentir os dois lados da mesma moeda da destruição. 


Começo a me deparar com a situação de que somos todos estrangeiros no mundo e diante dessa situação, onde somos o outro, precisamos aprender a entrar, dar um passo de cada vez, nos apresentar e, acima de tudo, observar. É preciso sentir, às vezes é necessário se recolher para refletir: o que efetivamente é nosso e o que carregamos como parte cultural que impactam de maneira negativa? E o que impacta de maneira positiva no mundo? Somos estranhos e achamos estranho, somos o outro e vimos o outro, é tudo tão diferente e tudo tão absolutamente igual. Recuar, recolher, ir, ir além, mas não podemos ultrapassar aspectos importantes de que ali existe , bem na nossa frente, algo completamente desconhecido. Agora não é mais o outro e sim a dura e graciosa apresentação à vida e ao mundo. Absolutamente, sair da nossa bolha é cair no mundo e não podemos cair de paraquedas crendo que temos muito. Temos pouco, muito pouco. Somos um grão de nada na imensidão de um todo, que também pode ser um nada. 


Me recolhi para sentir, para refletir. Me recolhi. 


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Briga de vizinhos

Hoje pela manhã resolvi sentar e escrever sobre um tema que sempre me surpreende: a falta de limite com o outro. Quando escolhi o tema briga de vizinhos poderia seria algo não literal. O vizinho pode ser qualquer pessoa que encontra-se ao seu lado, mas nesse caso foi sim briga entre vizinhos que me fez questionar porque passar a barreira do outro ainda se torna justificativa pelo comportamento errôneo. 

Tudo começou porque temos uma regra, cachorros sempre na coleira. Uma vizinha estava adestrando o seu bichinho em um lugar comum, próximo ao parquinho. O cachorro se assustou e avançou em uma criança que perto da mãe foi socorrida por esta. A briga se instalou, pais de um lado e donos do cachorro do outro. Discussão particular certo? Não! Os vizinhos resolveram brigar pelo WhatsApp e todos foram obrigados a participarem e darem suas opiniões em um evento em que ninguém havia presenciado. O objetivo do grupo, que era termos contato uns com os outros,  se tornou um lugar de lavar roupa suja e muitas ameaças. Foi quando resolvi sair pois algo estava muito errado. Além dos motivos individuais, regras quebradas, crianças em risco, a polícia estaria prestes a entrar em jogo.

Não sei como isso terminou mas esse incômodo ficou em mim por alguns dias. Tudo começou porque existe uma permissão e brecha para quebrar regras básicas de convivência, o respeito ao outro. Eu fico indignada de ter que escrever sobre algo que seria tão simples se todos compreendessem que algo pode incomodar profundamente alguém e eu preciso preservar esse espaço que não é meu.  Vivemos em uma era que o individualismo impera mas até que ponto o individualismo que tem imperado não é pura manifestação egoísta? O individualismo não é egoísta desde que seja um individualismo responsável. Esse termo individualismo responsável é usado pelo filósofo Gilles Lipovetsky. Ele traz a ideia de que é preciso sair do Narcisismo hedonista e egocêntrico para irmos ao encontro de um Narcisismo mais maduro, flexível e responsável. Um individualismo sem culpa é onde o objetivo está no foco dos benefícios e não nas intenções. 

Vejo que esse é o desafio que nos impõe diariamente em todas os círculos de convivência. É de extrema importância que saiamos do nossa zona de prazer absoluto, para lidarmos com o respeito genuíno ao espaço do outro. Esse outro que está ali na outra casa e esse outro que também sou eu.