A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)
Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Criança não namora: mais UMA regra pungente a imaginação infantil.
quinta-feira, 17 de agosto de 2017
Como sou Medíocre!
Essa semana assisti ao filme "Hannah Arendt", li o livro "O estrangeiro" de Albert Camus, semana passada alguns vídeos do Ariano Suassuna e fiquei com a sensação de que vivemos em uma mediocridade gigantesca. Nos reinventamos e cremos que estamos sendo individuais, mudamos de ideias e opiniões e ficamos convictos de que algo novo surgiu. Seria mesmo possível não estar massificado? Vejam que comecei o texto dando exemplos que posso não ser tão medíocre assim: que horror! Não vou apagar a minha mediocridade, ela está aí e tem sido minha convidada.
Qual o tamanho da nossa cegueira? O que nos faz insistir olhar para as mesmas coisas exatamente do mesmo jeito? Porque tudo tem caído na normalidade? Que passividade é essa e com o que estamos sendo coniventes? Quais as decisões que tomamos e realmente acreditamos que não fazemos escolhas? As justificativas andam permeando demais a vida individual e consequentemente a vida coletiva.
O Brasil está caótico, o mundo em estado de alerta e nós, pessoas medíocres, continuamos a viver dia após dia. Pensamos, pensamos, discutimos virtualmente, rompemos relações - maioria virtuais - e levantamos bandeira de autocontrole e autoconhecimento. Procuramos soluções mágicas e temos certeza que não fazemos isso. Acreditamos em sentido de vida mas vivemos ainda na superfície do que nos é imposto como boa vida, social, ecológica, política e de preocupações.
Somos mandados até no que temos que nos preocupar. O bem e o mal está a todo vapor conduzindo nossa existência. Ora em um pólo, ora em outro, vamos dançando conforme a música e nos iludimos com a sensação de que estamos com as rédeas em nossas mãos.
Não sei se há muita saída para o que estamos vivendo quando decidimos ficar no meio, no esperado, no desejado, no direita e esquerda, na pouca reflexão. Até nossas reflexões precisam ser questionadas. O que refletimos é efetivamente nosso ou nos foi imposto de maneira sutil para que se torne mais uma preocupação que devemos ter?
A palavra medíocre diz respeito ao que é mediano, comum. Porque olhamos para isso como algo negativo? Isso me chama atenção demasiada. Porque temos horror de estarmos na média? Que sentimento é esse que nos permeia e nos chama para sair do lugar comum? O que consideramos mediano? Não será esse o anseio que nos leva de lá para cá? Não será esse o objetivo que nos conduz a grupos fechados de pessoas "aparentemente" fora da média? Quantas pessoas fora da média conhecemos? O que acontecerá se assumirmos nossa mediocridade e sentarmos à mesa com ela, olhar profundamente em seus olhos e questionar: onde está minha saída nisso tudo?
A vida é isso aí mesmo? Somos todos iguais com discursos e rótulos semelhantes? Impulsos e abatimentos na mesma linha? Pode parecer pessimista demais, mas não ando vendo pessoas indivíduos, vejo pessoas em massa.
"O que o move, move. O que o agrada, agrada. Seu gosto acertado, é o gosto do mundo" - Lessing apud Hannah Arendt - Homens em tempos sombrios.
Se baixamos a qualidade artística pela massificação, o que dirá o resto em nós? Cada um na sua própria massificação crendo que vive em um mundo de respeito a individualidade. Vivemos aí um individualismo massificado. Estou rindo de desespero até a próxima encarnação e me desconstruindo completamente sem saber onde isso vai parar.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
Ausência para uma outra presença.
Nossa que saudade! Fiquei ausente por muito tempo, mas isso tudo tem um motivo: a nossa mudança. Mudar de país não é tão simples quando precisamos desfazer de uma vida no Brasil. Faz dois meses que chegamos à Alemanha e só agora pude sentar e escrever. Ausência para uma nova presença.
Não faço a menor idéia por quais caminhos irão minhas reflexões, muitas mudanças aconteceram e o olhar tem acompanhado isso. Gostaria de trocar um pouco e tentar falar sobre o recolher a partir da minha experiência. Vocês vão me sentir mais perto.
Recolhemos muitas vezes quando o inesperado aparece, recolhemos em casa, no quarto, embaixo das cobertas, recolhemos para dentro da gente. Sentimos medo e muitas vezes não sabemos o que fazer com isso. Não gosto de pensar que o medo é um sentimento de pessoas que não confiam na vida, não possuem fé, não se deixam levar ou até mesmo que são aprisionantes e aprisionadas. O medo é humano e a questão maior que fica é: como dialogar com esse medo? Muitos me perguntaram e me perguntam se tive medo nessa mudança e eu digo: por mim não tive medo algum, pelo meu filho tive todos os medos. Mas Camila você não confia? Confio demais, confio tanto que vim. Tenho um filho pequeno que não pode escolher e por ele tenho muitos medos. Tudo é uma questão de fé na vida, sei que irá passar e que logo estará integrado e dominando a língua local, mas até que isso aconteça preciso todos os dias lidar com a impotência. Me recolho no sentimento de impotência e consigo estar presente com ele. Sem desespero comecei a sentir e me colocar em lugares inimagináveis dentro de mim e do mundo. Como se sente um analfabeto no mundo? Agora eu sei um pouquinho. Como se sente com infinitos olhares de curiosidade e julgamentos sem a possibilidade de desfazer tais ideias? Eu sei um pouquinho. Como se sente uma pessoa que vive à margem da sociedade? Agora eu sei um pouquinho. Como se sente uma pessoa completamente dependente de alguém? Ah! Eu também sei um pouco. Como se sente uma pessoa que sofre preconceito? Estou começando a saber.
Quem me conhece sabe que tenho um olhar positivo para a vida e que sempre busco o lado bom de tudo, por isso não vou ficar no relato sobre a forma como tenho conseguido ficar bem, porque eu, normalmente, fico bem nas adversidades. Isso é a fé na vida não forçada. Agora quero propor um encontro com esse sentimento de recolhimento por impotência. Quando nos recolhemos porque temos diversas situações na vida que nos abalam, ficamos um tempo pensando em nós. Tinha tudo para fazer disso, um prato cheio como diz minha mãe. Mas, como aprendi na vida, tem momentos que precisamos ressignificar. Por isso, me recolhi na impotência para pensar o mundo e me colocar nesse mundo. Como é difícil não conseguir ler, não conseguir se expressar, não conseguir se defender de olhares de julgamento e curiosidade. Como é difícil dizer para alguém que foi sem querer e nem a sua expressão ser capaz de dizer isso, afinal, as culturas são bem diferentes e por aqui não se sentem tanto como nós brasileiros. Como é difícil estar no parque e vivenciar a exclusão por preconceito e não ter ferramentas para tentar solucionar tal situação. É uma impotência tão grande e uma dor tão aguda que a vontade é sair correndo. Mas aí logo me coloquei como ser no mundo e senti, senti da pior maneira possível, o que é estar à margem pelo preconceito.
No meio de tudo isso fiquei com o pensamento, como se sente um refugiado? Isso eu realmente não faço ideia. Deve ser algo terrível. É como viver dentro de uma grande prisão. Há uma busca de liberdade mas o preço é alto a se pagar. Você se torna livre e ao mesmo tempo está completamente aprisionado pelo olhar do outro. É viver o dia como se nunca fosse acabar, é perder todo o sentido e querer se trancar, é viver a liberdade sonhada numa cela trancada.
O mesmo me questionei no polo oposto: como se sentem os alemães diante de tanta diferença cultural? Como se sentem quando vêem seu patrimônio sendo pixado, depredado e mal cuidado por pessoas que possuem dificuldades em lidar e respeitar as diferenças culturais? Estamos na casa deles, cautela e respeito precisam fazer parte. Mas muitos vivem num egocentrismo tão grande que realmente acham que o esforço e a mudança precisam vir dos alemães. Estava no parque e algumas crianças estrangeiras riscavam seus nomes em uma placa e nada foi feito pelos pais. Que costume é esse? Que direito temos de destruir? Ninguém tem o direito de nos destruir e não temos o direito de destruir nada. Pude em uma semana sentir os dois lados da mesma moeda da destruição.
Começo a me deparar com a situação de que somos todos estrangeiros no mundo e diante dessa situação, onde somos o outro, precisamos aprender a entrar, dar um passo de cada vez, nos apresentar e, acima de tudo, observar. É preciso sentir, às vezes é necessário se recolher para refletir: o que efetivamente é nosso e o que carregamos como parte cultural que impactam de maneira negativa? E o que impacta de maneira positiva no mundo? Somos estranhos e achamos estranho, somos o outro e vimos o outro, é tudo tão diferente e tudo tão absolutamente igual. Recuar, recolher, ir, ir além, mas não podemos ultrapassar aspectos importantes de que ali existe , bem na nossa frente, algo completamente desconhecido. Agora não é mais o outro e sim a dura e graciosa apresentação à vida e ao mundo. Absolutamente, sair da nossa bolha é cair no mundo e não podemos cair de paraquedas crendo que temos muito. Temos pouco, muito pouco. Somos um grão de nada na imensidão de um todo, que também pode ser um nada.
Me recolhi para sentir, para refletir. Me recolhi.