A psicoterapia profunda é tanto uma ciência, um estudo de conhecimento empírico, quanto uma arte, um compromisso prático e pessoal com a outra pessoa. (E. Edinger)

Die Tiefenpsychotherapie ist ebenso eine Wissenschaft, ein Studium des empirischen Wissens wie eine Kunst, ein praktisches und persönliches Engagement mit anderer Person. (E. Edinger)

domingo, 30 de dezembro de 2012

O casamento como um colar de pérolas.

"Um ser humano amar o outro: talvez seja esta a mais difícil de todas as tarefas que se nos impõem, o último teste e a prova final, o trabalho para o qual todo outro trabalho não passa de preparação" R.M.Rilke

Ao ler o livro "No caminho para as núpcias" me questionei por diversas vezes quando a autora fala em uma alma irmã, se não deveríamos, de fato, irmos ao encontro dessa alma para assim, nos dispormos ao companheiro (a) concreto (a). 

Esse início de Rilke me fez pensar, não estaríamos nós nos trabalhando para o amor ao próximo, já que, é no relacionamento que podemos trabalhar a nós mesmos se nos permitirmos olhar e aceitar o outro e consequentemente nos olhar na relação?

O casamento, a cerimônia, a festa, tem para muitas pessoas um significado social onde perante aquele grupo o casal se apresenta como instituídos no matrimônio, mas, será que esse casamento é de fato o caminho para as núpcias?

De acordo com a Linda S. Leonard:

"No plano mais profundo, as núpcias que procuramos são realmente as núpcias dentro de nós mesmos. Ter relacionamento pleno e saudável com outra pessoa exige que eu mesmo seja pleno e saudável".

Sim, precisamos olhar para dentro para nos desvencilharmos das projeções idealizadas e conseguir olhar a si mesmo e ao outro. Somente assim o casamento de fato se tornará verdadeiro. Você aceitou casar-se com o outro e não com a imagem que o desejo lhe impôs. Conhecer a si mesmo é o caminho para a possibilidade do encontro verdadeiro. 

A autora ainda traz um trecho que considero precioso para a construção da união que diz que o maior desafio para as núpcias é a morte. Que morte seria essa? Ao discorrer na leitura, Linda fala sobre a morte nas núpcias: 

"(...) Casar-se é morrer em prol do Outro, é renunciar desejos, fantasias, ilusões e obsessões do próprio ego, e respeitar o mistério maior do relacionamento". 

Quando um casal aceita a união, aceita o desconhecido e o desconhecido gera medo e consequentemente exige uma mudança na vida, já que, naquele momento você abriu mão de viver sua própria vida para vivê-la a dois. A renuncia significa a morte e ao mesmo tempo o nascimento de uma nova forma de viver. O seu parceiro foi escolhido por você e sendo assim, como escolha, deve ser feito um elo maior do que o externo, um casamento maior do que um encontro de lei, para ser de fato um encontro de almas. Almas que  juntas respeitam o parceiro, a si mesmo e o casamento.

No momento em que a união se dá nos moldes de encontro de almas, o que é vivenciado é o amor. O amor quando se torna o carro chefe compreende o meu, o seu e o nosso lugar  no mundo. Não há disputa de poder pois, não é o meu ou o seu jeito, é aquele jeito que escolhemos e construímos juntos, o nosso jeito. 

Casar é dar espaço para mais um nesse história, é aceitar a construção do nosso lugar. O matrimônio não é meu, nem seu, ele é nosso e esse lugar deve ser preservado.

Penso que o casamento é como um colar de pérolas preciosas que deve ser construído a dois. Cada um tem as suas pérolas e com paciência e dedicação se unirão. Deixam de ser solitárias e passam a ser parte da construção de um único e precioso colar. As pérolas são nossos valores, ensinamentos, medos, sonhos, expectativas, desejos que ao serem trabalhados em nós podemos juntos escolhermos quais estarão no colar. Depois de pronto, essa joia precisará ser cuidada com zelo, dedicação e acima de tudo amor, pois ele é o maior e o mais precioso bem da união.  




sexta-feira, 30 de novembro de 2012

50 tons e o entusiasmo feminino

A trilogia 50 tons de cinza tem dado muito o que falar. Por esse motivo esse mês falarei dessa história que tem mexido tanto com a cabeça das mulheres. Ler os três livros foi tranquilo e instigante, o que me deixou em alerta foram os comentários que ouvi na faculdade, nas ruas e dentro do consultório.

É certo que ler a trilogia sem nenhuma visão crítica te faz cair facilmente em um romance fraco, sexualizado e idealizado. No entanto, por que mais de 30 milhões de pessoas, mais especificamente o público feminino, tem se interessado por tal tema considerado pornografia para mamães? Não é uma trilogia de grandes análises, mas, mostra o quanto o feminino está desesperado na procura do seu lugar no mundo.

Há alguns anos atrás o discurso social era baseado na conduta da mulher dentro de casa. Para conquistar um bom partido ela precisava ter boa mão, aí conseguiria "pegá-lo pela boca". Com a revolução feminina e a tentativa de uma liberdade sexual inexistente, a mulher precisou buscar outros meios de conseguir o tão esperado bom partido. Seria hoje pegar o homem pela cama? Mais de 30 milhões de leitoras, o que tem atraído tantas mulheres?

Cristian Grey é um homem de sucesso, muito rico, o homem perfeito até que aparece a proposta sado-masoquista para uma garota recém formada e virgem. Ela entra de cabeça na relação, aceita o contrato sexual e embarca nesse romance dominador - submissa. Muitas críticas vieram. Análises sobre os personagens,  Cristian Grey é um psicopata e Anastasia Steele é uma mulher que gosta de apanhar é uma visão reducionista. É fato que muitas mulheres desejam seu Cristian Grey, mas quem é para elas o 50 tons?

O modelo do homem protetor volta com tudo. As mulheres entram em contato com esse modelo de homem idealizado, capaz de protegê-la. Precisamos entender, que proteção é essa? Dois pontos acho importante ressaltar, a proteção e a posição do feminino na atualidade.

É fato que a trilogia aponta a necessidade de uma submissão, não da mulher, mas do feminino. Poder tornar-se mulher é o grande desafio que encontro diariamente em meu consultório. O princípio feminino está intimamente ligado ao princípio masculino, a mudança de um aspecto reflete nas duas funções. Mas, que tornar-se mulher é esse? É sair do lugar de dureza e intransigência, é se permitir receber gentilezas, é possibilitar sair do lugar de comando sem sentir-se diminuída e menosprezada. É permitir dar espaço a paciência. Não sentir a necessidade de competir e saber que a vida é para ser vivida. Mas, onde se encaixa a proteção? É importante questionarmos essa necessidade, a mulher precisa ser protegida do que? Não podemos entrar em questões concretas da realidade atual, mas, podemos entender que a proteção pode ser dela mesma, da necessidade de se ter o poder, de trazê-lo para o relacionamento e com isso impossibilitar a união. O poder faz com que haja a necessidade de que o outro precise de você. A verdadeira relação te dá a possibilidade de escolha, ou seja, você pode querer estar com o parceiro.

A dominação e submissão sexual de forma imposta e desrespeitosa não segue adiante no romance, Anastasia se recusa a prosseguir e sai do contrato para posteriormente dar início a um outro tipo de relacionamento. A sua volta possibilita ao Cristian questionar-se e permitir-se entrar em contato com o outro, algo que não viveu durante toda sua vida. Mistério que é desvendado ao longo da história. Anastasia que num primeiro momento parece uma moça tola e influenciável, se torna uma mulher que traz a possibilidade da construção do casal. Ela é a saga de milhares de mulheres.

Fazer a crítica simplesmente por estar diante de um best seller é, a meu ver, criticar sem compreender o por quê se tornou sucesso de vendas. É a impossibilidade de aproximação do outro. É colocar uma barreira entre o poder e a dominação intelectual e a submissão do entusiasmo da massa, considerada por muitos "inteligentes", incapazes de ter uma visão crítica. Ok, nem tudo está na consciência. Nossas mudanças partem de um processo inconsciente. Se está atraindo tantas mulheres, temos que compreender que, em algum lugar algo está sendo mexido.

A primeira mudança se dá no concreto e os 50 tons tem sido para muitas delas esse primeiro passo. Olhar para si e questionar seu relacionamento baseado em um romance idealizado e realizar mudanças é no mínimo uma tentativa de desenvolvimento.  Longe de ser desconsiderado, temos que olhar o motivo de tanto entusiasmo. Isso é um alerta. Que venham as mudanças pelo 50 tons, pois, podem a partir daí, surgir a necessidade de uma mudança mais profunda e verdadeira. Não esqueçamos que os primeiros passos no caminho do desenvolvimento acontecem em um plano concreto para posteriormente surgir a possibilidade de caminhar para uma mudança profunda e inteira.

O cuidado que deve ser tomado é não mudar o discurso social "homem se pega pela boca" para "homem se pega pela cama". Essa mudança da narrativa não traz um novo lugar da mulher na sociedade. Homens não devem ser pegos e nem mulheres devem virar caçadoras. As relações precisam ser construídas através uma conquista verdadeira, onde se aceita e é aceito pelo outro de forma inteira e respeitosa. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sobre o amor

Sobre o amor. O que significa amar? Que sentimento é esse que para muitas pessoas é o combustível da vida? 

Escrever sobre o amor é algo muito delicado. Esse sentimento  tem peso, significado e importância completamente diferente em diversas culturas. Na cultura ocidental o amor é essencial, é ar, é o pensamento e para muitos, o grande objetivo da vida. Mas, de qual amor falarei? Aqui, discorrerei sobre o amor romântico e o amor na atualidade baseada no livro de Regina Navarro Lins "O livro do amor".

Para dar início a esse tema delicado, diferencio o amor romântico do amor atual. O romântico é aquele que imagina, idealiza a vida de duas pessoas como sendo uma só. Há uma fusão onde a individualidade é deixada em segundo plano, visto que,  o objetivo dos amantes passa a ser a felicidade única e integrada. Hoje essa ideia do amor romântico está caminhando para uma substituição, onde o amor primeiro é por si e traz o outro para dentro desse mundo sem perder a individualidade. Individualidade é um conceito fundamental na atualidade. 

Pode-se pensar que no séxulo XX  era esperado que o amor fosse vivenciado de maneira intensa, idealizada, romantizada, endeusada, enfim, repleta de projeções humanas. Sendo isso, há uma impossibilidade de permanência na relação pois o parceiro idealizado torna-se real. 

Hoje há necessidade de pensar o amor a partir da ideia de que primeiro deve amar a si mesmo e com isso as expectativas com relação ao parceiro mudam, não sei se são completamente diferentes do amor idealizado mas, o objetivo é ter o outro como parceiro e não como aquilo que desejo. Também não acredito que seja possível, pois as projeções são inevitáveis. A questão é que há uma maior consciência para a compreensão do por que escolhemos aquele cônjuge. 

Ainda hoje vejo quantas pessoas duelam internamente entre essas duas formas de amar. De acordo com a autora, é perceber que há uma mudança na exigência de exclusividade que o ideal do amor romântico apresenta mas, discordo que esteja saindo de cena. A exclusividade, para muitos, ainda é algo importante e valorizado dentro da relação. No entanto, é discutível que exclusividade é essa, se é aquela que impede o outro de existir, de ter seu próprio espaço pode caminhar para o fim da união. Mas, se é aquele amor que pede exclusividade dentro da intimidade, a necessidade desse ingrediente passa a ser fundamental na relação. O que é exclusivo pode ser visto como algo só meu, mas dentro da relação o exclusivo poder ser aquilo que é só nosso.  
 
Devemos considerar que na sociedade ocidental atual ainda se vende a imagem do amor perfeito. Não sei se caminha para o fim, talvez para a fusão do romântico e do individual. 

Termino o texto desse mês com mais um parágrafo do livro, que ao meu ver, sintetiza o significado ocidental do amor.

"O amor é uma convergência de muitos desejos, alguns deles sexuais, outros éticos, muitos diretamente práticos, outros pouco românticos e fantásticos. No amor não queremos só sexo e segurança, mas também felicidade, companhia, diversão, alguém para  viajar, sair, ouvir conselhos, ter orgulho desse alguém, enfim, uma associação com quem é uma vantagem social e um aliado, alguém com quem vamos dividir o trabalho doméstico e aumentar a renda da casa, alguém de quem podemos depender na hora dos problemas e nos consolar nos momentos de tristeza, e por aí vai." 


 

domingo, 30 de setembro de 2012

O casamento por escolha

Nascemos, crescemos e somos criados por pessoas que não escolhemos. Somos inseridos em uma família sem termos a possibilidade de negarmos. Podemos futuramente até abandoná-la mas, a família de origem continua em nós. 

Cresmos e aprendemos a escolher as pessoas que irão conviver conosco durante a vida. Amigos, colegas, profissão, trabalho, emprego e o nosso cônjuge. 

O que nos motiva escolhermos determinada pessoa para nos acompanhar em um período de nossa vida? Não usarei a ideia de escolha para o resto da vida pois não quero me prender na ideologia do amor romântico. Me basearei na ideia do casamento pelo tempo escolhido, seja ele um breve relacionamento ou longo o suficiente para acompanhar o outro até o seu fim. 

Há alguns anos atrás a união tinha sua determinação em outros pilares como acordos familiares, sociais e políticos. Com o avanço do tempo, houve a possibilidade  de escolha pelo sentimento e com isso a valorização do matrimônio pelo amor. Hoje a escolha permanece mas tenho percebido que muitas relações se mantém não mais pela ideia do amor romântico. Questiono, quais os motivos de união? O que faz o casal permanecer no casamento? Em meu consultório me deparo com um alto índice de intolerância na relação o que culmina, muitas vezes, com o seu fim. A intolerância, ao meu ver, mostra uma dificuldade do casal em relacionar-se com o jeito do outro.  E por isso questiono: o que tem sido a mola propulsora da escolha do cônjuge? Será que a união é de fato baseada no amor? Será que a paixão, o ímpeto de viver um amor romântico faz com que as pessoas idealizem o outro a ponto de não suportarem a realidade em questão? O que determina a escolha do cônjuge? 

A meu ver, muitos se perdem quando idealizam suas próprias vidas e projetam no outro a conquista de seus planos. No entanto, isso não é comunicado ao outro que chega na relação com tantas expectativas e planos quanto o seu parceiro.  Após o casamento, a vida diária, a rotina tem cansado muitos casais que procuram a terapia para livrarem-se dessa monotonia conjugal. Viver uma vida sem rotina é uma ilusão. A ideia de liberdade trouxe o aprisionamento, muitos vivem atrás de serem livres e acabam presos na ideologia de algo inexistente. O ser livre é aquele que tem a capacidade de viver de acordo com a sua natureza. No entanto, essa palavra trouxe distorções e siginificações que faz com que o indivíduo associe a liberdade com o egoísmo de "eu faço da minha vida o que eu quiser", desconsiderando o parceiro. Essa ideia de liberdade para muitos é algo intolerável. Para lidar com o casamento muitos casais usam de artifícios para quebrarem com a instituição conservadora do casamento e consequentemente acreditam que libertam-se da rotina. 

Relações que permitem a entrada de outros parceiros, casamentos onde a opção é viver em residências diferentes, sexualidade que ultrapassa o conservadorismo. Não há crítica ao novo modo de viver de muitos casais, e sim uma reflexão, o que faz o novo casamento sentir-se estafado de uma união monogâmica? 

O casamento tem como significado, união, associação, vínculo. Associar-se a alguém de sua escolha. O que determina um casamento saudável é a possibilidade de eleger. Estar na relação por opção e não por dever ou por dependência. Desta forma o resultado é a união com satisfação e proximidade.

Existe uma diversidade enorme de casamentos, mas sem dúvida alguma o que estabelece a verdadeira união é o desejo de estar nela. A meu ver, a união do casal hoje não se dá mais somente pelo amor, o que une o casal é a possibilidade de dividirem uma vida, de compartilharem planos, expectativas e sonhos. Com isso, viver um casamento é querer estar nele, é almejar o parceiro em sua amplitude de sentimentos pelo tempo que desejarem . 

O amor faz parte da escolha e sem dúvida é o maior alimento do casamento, mas não é o único. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A chegada do primeiro filho

Não por acaso, escrevo esse mês sobre a chegada do primeiro filho na vida do casal. Com o nascimento do Marco Antônio pude vivenciar, juntamente com meu marido, a nova experiência de sermos pais. 
O primeiro mês mexe com toda a vida conjugal, novas bases passam a ser requeridas para que a harmonia do lar prevaleça. Quando isso acontece, quando há resiliência, o elo fica mais intenso. Para isso, o casal precisará unir-se em objetivos comuns e a partir daí estabelecer novos acordos. 

O filho chega, as noites de sono mudam, na verdade você mal dorme, o mal humor pelo cansaço aumenta e você precisa respirar fundo para não descontar no outro as dificuldades normais da adaptação. Nesse texto não vou falar do sentimento sublime e inigualável de ser mãe, nesse momento não explanarei sobre o amor que ultrapassa qualquer dificuldade. Falarei da importância do esclarecimento, da união e do companheirismo em que o casal deve ter para que a sintonia fique forte e suporte as mudanças inevitáveis. 

Lembram-se dos textos sobre ciclo vital em que escrevi há alguns meses atrás? Pois bem, como eu disse, agora é a hora de estabelecer novos acordos conjugais. Quem acordará nas madrugadas? O banho? A fralda, quem trocará? Podemos contar com o companheiro ou seremos só um nesse momento? Quem ficará responsável pelas contas da casa? E os cuidados com o bebê, remédios, vacinas? Quem levará ao pediatra? Será o casal? A mãe? O pai? Querem a ajuda de familiares? Quem fará esse pedido caso haja necessidade ou desejo? Enfim, podem contar um com o outro?

Para que haja uma harmonia é importante diálogo. Da mesma forma em que esse filho foi gerado, seja planejada ou não, a partir do momento em que se decide ter um filho ambos são responsáveis pelo bem estar  da criança. Em primeiro lugar é o bem estar do bebê, num segundo momento, quase que concomitante é o bem estar do casal como pais desse filho. Sobreviver ao primeiro mês pode ser prazeroso como também penoso, caso todo o encargo fique unicamente para um dos pares. 

Planejar pode não funcionar. A vivência de noites mal dormidas, o cansaço, a irritação, podem surgir diante da impotência e assim, afastar o casal dando a falsa ideia de que o filho foi o causador da separação. Se há lucidez diante de tal situação , a comunicação sem ruídos promoverá a possibilidade de novos acordos o que garantirá que qualquer problema será do casal e não da chegada do filho. 

A comunicação sempre foi por mim defendida como crucial para o sucesso do relacionamento. O que parece ser óbvio se mostra ineficaz diante de um desafio. Contar com o outro nesse momento é sem dúvida o ponto mais importante para manter a vida saudável e acima de tudo ultrapassar e adaptar nessa nova fase.Com isso o casal conseguirá cumprir com a função de pais sem deixarem de lado o casamento. Grandioso desafio que com amor, companheirismo, compreensão e acima de tudo diálogo o sucesso fará parte dessa nova família. 

O filho crescerá em um ambiente adequado com dificuldades mas acima de tudo capacidade de resiliência e resolução de problemas. O filho perceberá que acima de tudo o que predomina é a união, o respeito e o amor. 



quarta-feira, 25 de julho de 2012

Separar para casar

Há algum tempo falo sobre casamento e família. Percebo que tal assunto não se esgota. Um questionamento me passou: será mesmo necessário separar para casar? Quando falo em separação me refiro à necessidade de diferenciação das famílias de origem para permitir a construção da família atual. Separar-se dos pais é uma missão difícil porém necessária.

Há uma impossibilidade do casamento acontecer quando os cônjuges ficam aprisionados à ideias, valores, comportamentos e nem questionam se agem por convicção ou simplesmente de forma mecânica. Quando percebemos que um dos parceiros ou ambos defendem cegamente atitudes que não são tão consistentes, nota-se uma repetição inconsciente de padrões familiares, o que mantém a indiferenciação.

No entanto, quando percebemos a união do casal, fica evidente a cumplicidade atuando na vida pelo casamento, o que possibilita a construção de novos valores e ideais. Isso não significa que a herança familiar não os acompanhe, muito pelo contrário, a herança se mantém e seguirá por outras gerações. A diferença é que há uma consciência e uma visão ampla que permite refletir e escolher. A possibilidade de escolha é reflexo da diferenciação.

Um casal diferenciado se integra na união e na família de origem sem que esta vire uma ameaça para a relação. A cumplicidade maior está na díade marido e mulher e não mais minha família x sua família.

Mas, o que é necessário fazer para que ocorra a diferenciação? Um dos pontos que devem ser trabalhados na relação é o diálogo, sem disputa, sem donos da verdade. Diálogo franco e respeitador. Quando um casal consegue conversar abre a porta para as demais mudanças. Cria-se através da conversa uma aliança que ultrapassa as palavras, ela se instala no olhar, no gesto, na respiração mais profunda. Com a comunicação acertada, os acordos passam a ter espaço para existir. Os limites ficam claros entre a nossa família, os meus e os teus pais. A família central passa a ser a de sua escolha, os pais ocupam um lugar novo e essencial de apoio e sabedoria. Tal limite pode parecer duro e cruel, no entanto, é um limite saudável, necessário e encantador pois traz a todos a  beleza de criarmos novas formas de ser e agir no mundo. Os nossos pais passam a ser, referência de homem, mulher e casal e ocupam um novo lugar social e familiar de sogros e avós.

A beleza da diferenciação e da mudança permite à todos uma nova vida com respeito, limite e principalmente referência.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Casamento, Intimidade e Sexualidade

Tenho visto com certa frequência muitos casais reclamarem de sua vida sexual no casamento. O que antes era queixa dos homens, hoje tem ficado mais evidente a ausência deles na cama e a presença de mulheres insatisfeitas. Casais cansados, sem disposição e com outras prioridades, permitiram que o mistério da sedução perdessem o seu lugar. Que intimidade conquistada foi essa que trouxe ao casal desânimo sexual? 

Escuto de muitos casais questões como: "Isso é normal não é? Depois de algum tempo junto o sexo tende a ficar monótono e escasso"; "Eu sei que o sexo muda, mas, porque ele não consegue mais me olhar com desejo?" Esse tipo de insatisfação sempre aconteceu? Pensar sobre a sexualidade e buscar uma melhora tem ficado cada vez mais frequente. Não é mais uma insatisfação só do homem, as mulheres tem reclamado cada vez mais da ausência de seus maridos. No entanto, muitas delas voltam toda a culpa para si e reflexões sobre não ser mais atraente, estar acima do peso, flácida, ficam cada vez mais constantes. O problema é que novamente a mulher passa a ser responsável pelo prazer do homem, nesse caso a falta de estímulo é culpa exclusivamente dela. Peso desnecessário e cada vez mais frequente. 

O relacionamento há muito tempo tem lutado para conseguir seu espaço íntimo, com a intimidade que traz cumplicidade, apoio, diálogo. No entanto, juntamente com a amizade e proximidade os casais se afastaram na cama. A sexualidade está cada vez mais escassa, o leito que no início do casamento era o lugar mais frequentado hoje está populoso, com filhos, preocupações, trabalho, estresse e incansáveis diálogos sobre o relacionamento. 

Ao meu ver, o que pode minar o desejo é a ilusória ideia de garantia, não há relacionamento que se garanta simplesmente pelo fato de, eu acho que o outro merece ser feliz e a felicidade dele sou eu. A intimidade traz a ideia de pertencimento, não existe perigo de se perder, o outro é meu, o que mostra o caráter possessivo da relação. Essa intimidade mata o desejo pois não há perigo da perda, no entanto, quando o perigo se torna iminente o desejo volta à tona. A partir do momento em que a ideia de pertencimento desocupa o lugar, o relacionamento adquire uma nova cara, a intimidade passa a ter outro significado, sou íntima, ele me conhece, mas, não conhece tudo. Eu posso manter o meu espaço e esse espaço é suficiente para fazer com que o outro me queira por perto. A ilusão de conhecer o outro plenamente afasta a necessidade de exploração e impossibilita a mudança. Tal impossibilidade gera angústia e pensamentos como: "Se eu mudar posso perder o meu companheiro (a), eu posso não ser aceito (a)". Esse aprisionamento acontece justamente porque criou-se a necessidade de um relacionamento estático, aí, fica a questão: como uma relação estática pode gerar uma sexualidade atraente?

Anteriormente o homem se via como o único receptor do prazer e a mulher tinha que cumprir com o seu papel de esposa. Hoje, o homem se percebe como agente do prazer, o que me faz pensar que a partir dessa mudança pode ter ocorrido uma autocobrança onde ele precisa mostrar para si e para o outro o seu desempenho.

Penso que, não podemos mais olhar como sendo uma questão do homem ou da mulher, mas sim do casal. Ninguém tem que se sacrificar pelo outro mas sim pela relação. A relação exige, o casamento e o amor precisam acontecer para que a união se mantenha em pilares fortes e saudáveis. 

Termino o texto com uma belíssima frase de Joseph Campbell:  "O amor em si é dor, você poderia dizer, a dor de estar verdadeiramente vivo".

Esse texto é uma pequena parte do artigo apresentado no XX Congresso Internacional da Associação Junguiana do Brasil que aconteceu em junho de 2012. "Amor sem sexo é amizade? Aumento da intimidade com a perda da sexualidade é um destino do casamento?"

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O amor desnecessário

Esse mês gostaria de escrever sobre o amor. Não do amor que diz ser cuidadoso, preocupado, que diz que é importante estarmos juntos. Não do amor que espalha aos quatro ventos "eu preciso de você para ser feliz", "você é tudo para mim e eu não vivo sem você".

Quero falar do amor livre, que permite a escolha. Aquele que possibilita ser o encontro daqueles que querem se amar, ou de mãe para filho que deixa partir, de pai para filha que a deixa livre para escolher. Esse mês quero falar do verdadeiro amor, o amor desnecessário.

Amar alguém é poder escolher estar ao lado dessa pessoa. Amar é poder estar na relação genuinamente, simplesmente por amor, por querer estar perto, por desejo e não por necessidade e dependência. Precisar do outro é ser cativo de um sentimento possessivo, querer estar é poder amar sem limitação, livre de culpa e de obrigação.

Ouvi de uma colega de trabalho, Dery Leão, a seguinte frase: "Sabemos que tivemos uma boa mãe quando ela se torna desnecessária em nossas vidas". Sim, podemos ter uma relação de amor por escolha, por querer estar perto, livre de obrigações, livre de deveres, simplesmente porque amamos e nos importamos com aquele ser. O amor de mãe para filho, muitas vezes é incondicional, é o amor que permite que o outro sinta e faça o que quiser pois, nada disso abalará tal sentimento. Amor de mãe que exige, não é amor, é dever, é obrigação, é o amor que espera gratidão, recompensa. O amor desnecessário é o amor que permite sentir todos os sentimentos, inclusive os negativos, pois confia que todo sentimento ruim passará e o que permanecerá é o bem estar daquela relação.

Amar o outro na relação conjugal  não é diferente. O amor conjugal também é poder amar pelo que se é, não pelo que eu desejo que o outro seja. Amar por escolha, estar na relação por desejo, por felicidade e não necessidade. Amar e desejar que o outro seja feliz, mesmo que para isso ele precise partir. Amar sem esperar ser correspondido nas expectativas, é permitir a liberdade, é dar ao outro a possibilidade de escolha.

Sabiamente o sociólogo Zygmunt Baumann diz em seu livro, O amor líquido, que hoje as relações são mesmo líquidas, não há como pegá-las. Escorrem pelas mãos e não há garantia alguma de que a pessoa que está ao seu lado permanecerá com você. Isso ocorre justamente porque o outro é alimentado pela mesma ideia de que "eu mereço ser feliz e se você não consegue me trazer tudo aquilo que preciso, eu o troco". Ou seja, é do outro a responsabilidade de adivinhar e trazer a felicidade que mereço.

Será que essa ideia tão presente nos dias de hoje é de fato amor? Não seria esse o momento para desejar ser desnecessário para o outro? Se amar é escolha, talvez seja a hora de liberar o outro e a si mesmo para escolher e ser escolhido simplesmente por amor. 

sábado, 28 de abril de 2012

A conscientização do feminino

Tenho percebido que há uma quantidade cada vez maior de pessoas procurando ajuda para passar pelas crises de uma relação, seja relação amorosa, de trabalho, amizade ou familiar. O tema que muito tem aparecido e que eu interpreto como sendo a crise do feminino, tem afetado diretamente a vida de muitas pessoas. 

Antes de dar início ao texto, quero esclarecer que, quando uso o termo feminino não me refiro ao gênero e sim, ao princípio, a  função do feminino, que está na mulher e no homem. Para escrever esse pequeno artigo li muitos livros, usarei alguns deles para ajudar a clarificar o que seria essa crise do feminino que é tão atual.

Marion Woodman em "A feminilidade consciente" diz:
"Uma grande quantidade de pessoas que perdeu o casamento ou um relacionamento chega a casa à noite e mal consegue girar a chave na fechadura. Estão afogados na solidão. Escuridão é tudo que existe do outro lado dessa porta. Elas projetam seu próprio vazio nesse espaço. Não há ninguém em casa. É um trágico desperdício de vida. Aqui é onde a feminilidade é crucial. Se você tiver trabalhando bastante seus complexos e for capaz de diferenciar entre sua própria voz e as vozes destrutivas de seus complexos, então conseguirá aplicar sua própria força. Você poderá dizer: "Estou aqui. Este lugar não está vazio. Eu posso preenchê-lo com minha própria essência. Esse não é um sofrimento sem sentido. Eu confio que alguma coisa nova está nascendo do caos". A feminilidade consciente nos dá coragem para confiar no momento, sem saber qual é o objetivo".

É fato que muitas pessoas passam por esse tipo de crise, acham a solidão dura e insuportável. No entanto, como diz Marion Woodman, é o próprio vazio que está projetado do outro lado da porta. A partir do momento em que a pessoa consegue adquirir consciência do seu próprio ser, esse vazio deixa de existir. O grande desafio é trabalhar os complexos para que o "Eu" não se afunde na inconsciência. Saber quando está pensando e olhando o mundo com os olhos de um complexo materno ou paterno, saber o que é verdadeiramente seu e o que é do outro. Aprender e conhecer a si mesmo é a saída e o alimento para preencher a sensação da solidão. 

Em "A coruja era filha do padeiro", a autora traz o  retrato de que nessa cultura atual, as mulheres estão vivendo orientadas pelo principio masculino. 
"(...) Em sua tentativa de encontrar seu próprio lugar num mundo masculino, elas aceitaram sem perceber os valores de natureza masculina, como viver para consecução de objetivos, fazer tudo compulsivamente, ater-se ao plano material, que é incapaz de nutrir seu mistério feminino. Sua feminilidade inconsciente rebela-se e manifesta-se de alguma forma somática". 

Mulheres deprimidas, com distúrbios alimentares, com dores por toda parte do corpo. Sintomas que possivelmente refletem algo fora do lugar, um peso além do suportável. O corpo pede para parar. Escuto frequentemente mulheres desejosas de homens gentis e que ao mesmo tempo não suportam serem cuidadas pois, isso remete à uma submissão negativa, a submissão de uma época em que a mulher não existia além do seu marido. Tudo está muito confuso, os papéis do feminino e do masculino se perderam para muitas pessoas e há um trabalho árduo a ser feito para recuperar o si mesmo. 

O principal desafio nessa jornada é trabalhar persistentemente para encontrar a essência e assim, deixar de projetar no outro a imagem que gostaria de ter ao seu lado. Aceitar-se e reconhecer suas projeções é o melhor caminho para o auto conhecimento e a recuperação do feminino que confia. 


sexta-feira, 30 de março de 2012

Encontrar a si mesmo: uma busca maior.

Quando vejo a angústias de muitas pessoas em querer se encontrar, me questiono, que encontro é esse? Muitas delas dizem que é encontrar um amor, outras a paz, o trabalho, a satisfação pessoal, amigos, o corpo perfeito, um corpo magro, um corpo mais robusto. São tantas as buscas que não se sabe direito o que valorizar em si.

Existe uma procura, além dessa, que não se tem consciência, a busca da verdade, a busca do si mesmo. Quando digo verdade, não falo em opiniões, teses e ideias, digo da verdade da alma, a verdade que faz brilhar.

Lendo o livro "O espelho índio" de Roberto Gambini, e fazendo uma analogia com a busca de si mesmo, reproduzo abaixo um trecho sobre a chegada dos jesuítas em terras brasileiras.

"Psicologicamente, portanto, para sustentar a convicção de que seus dois pés apoiavam na virtude, um jesuíta tinha que projetar sobre o outro o seu sentimento de danação e passar a trabalhar externa e concretamente o problema no outro. A permanente projeção do mal no vizinho é um fenômeno cristão típico e implica uma vulgarização da mensagem de cristo na medida em que o fiel nunca reconhece o mal nele mesmo - o que desencadearia um processo psicológico novo. Cristo confrontou o demônio e foi crucificado entre dois ladrões, mas os jesuítas seguiram o caminho mais fácil da imitação exterior, ou seja, confrontavam o mal nos índios sem jamais admitir que também lhes pertencia"

Essa projeção no outro é recorrente, não é consciente e atrapalha em muito a possibilidade do desenvolvimento, visto que, enxergar a sombra no outro é algo limitado e que traz intolerância à diferença. Ser diferente é humano, poder ser diferente é digno, conseguir é uma dádiva.

Enxergar o mal em si mesmo é consentir o diálogo entre a sombra e a luz, é permitir a consciência e a possibilidade de mudança. O mal não deixará de existir mas, ele com certeza será mais tolerante e tolerado. Confrontar o mal no outro é viver em uma cegueira inútil que não permite o desenvolvimento e estagna a vida. Olhar para o outro pode ser a possibilidade de se olhar e descobrir a si mesmo, com luz e sombra. No entanto, para o encontro acontecer é preciso disponibilidade interna.

Para que o conceito de sombra não tome um caráter negativo, gostaria de esclarecer que aspectos sombrios podem ser positivos, isso acontece quando vimos no outro qualidades e capacidades que achamos inexistentes em nós. A sombra traz seus aspecto negativos e positivos, o importante é olharmos e dialogarmos com ela.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O criativo: expressão da alma

Nos últimos anos tenho lido muito sobre o criativo, a alma feminina e o quanto a criação pode ser um caminho para cura e libertação da alma.

Tenho visto com frequência pessoas tomadas por síndromes, fobias que as impedem de levar uma vida tranquila. Vejo que medos e angústias paralisam e impossibilita de seguir em frente. No entanto, percebo que o criativo é, para muitas dessas pessoas, um caminho para libertação da alma.

Um exemplo de mulher que teve no criativo a libertação de sua tristeza profunda foi Clarice Lispector. Estudei a história de vida dessa mulher, que resultou em um trabalho apresentado no XIX Congresso da Associação Junguiana do Brasil em setembro de 2011, onde, reproduzo abaixo um trecho do artigo.

"Na história de Clarice, ela vivenciou situações de desamparo que muito a desestabilizaram a começar pelo seu nascimento onde, faltou o acolhimento materno. Foi na escrita e na imaginação que, desde pequena criou mundos para libertá-la da tristeza profunda. Foi o elemento feminino de alma e cuidado, trazido pelo criativo, que amparou Clarice".

Quantas pessoas estão perdidas em suas tristezas, angústias e medos e não sabem por onde seguir? Penso que encontrar um caminho criativo pode ser o primeiro passo para a conscientização e solução da dor que as acompanham. Para muitas dessas pessoas é mais fácil encontrar o caminho criativo de sua alma, como forma de expressão da dor. No entanto, enxergar e ouvir a alma pode ser algo um pouco mais difícil para outras. Nesses casos, a terapia é uma aliado na busca do melhor caminho, e cada um deve procurar o tipo de terapia que mais se assemelha a sua forma de encarar a vida. Encontrar um profissional qualificado é de extrema importância mas, esse profissional precisará saber ouvir a alma e, diante da pessoa em sofrimento, precisará, como diz Jung, "ser apenas uma alma humana".

Conhecer a si mesmo, aceitar-se e dar vazão ao que está cativo é, sem dúvida, o caminho mais saudável de expressão da alma, o que inevitavelmente o levará à cura daquilo que te prende. Não é um trabalho rápido e indolor, muito pelo contrário, conhecer-se, aceitar-se e libertar-se daquilo que você ajudou a construir pode gerar dor mas, com certeza, será um caminho de alívio e estruturação ao encontro da individuação.

O criativo é a expressão mais pura da alma e descobrir o seu criativo é descobrir-se a si mesmo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais

O post passado foi muito comentado, recebi vários e-mails de leitores com questões que me instigaram a escrever mais sobre a relação pais e filhos. Essa semana ao assistir a uma entrevista com o terapeuta familiar Moises Groisman,  me deparei com uma colocação que me fez querer escrever sobre o que ele disse da relação parental. De acordo com Moises, muitos pais tentam fazer por seus filhos aquilo que não receberam de seus pais, e que isso, muitas vezes, faz com que o filho se torne o rei da casa.

Ao falar sobre isso, o terapeuta ainda complementou com a seguinte questão: Pais que tiveram pais rígidos que tentam ser diferentes com seus filhos, podem negligenciar na educação quando não conseguem colocar limites, quando os tratam fazendo exatamente diferente do que receberam, fazem como forma de punir aqueles que "falharam" na visão deles. O que muitas vezes acontece é que, esses filhos que são criados de forma passiva tornam-se os ditadores de seus pais, fazendo com que eles vivenciem o seu fracasso e a repetição da rigidez de sua infância.

Quantos adolescentes entram no caminho ilícito? Quantos desses adolescentes tiveram pais que fizeram de tudo por eles? Isso não é regra mas, é muito comum. Não sou contra a questão de se fazer pelos filhos, mas, como disse no post passado, a criança e o adolescente precisam de amor, atenção, limite e frustração.

Ao assistir o Doutor Moises falar, me deu mais certeza de que muitos desses problemas que a sociedade e a família enfrenta é justamente por falta de pais que perdoaram seus pais. Saber que a forma de amar e educar mudou, o que não significa que não existiu amor e cuidado na forma rígida da educação passada. Ter a capacidade de tirar o que foi bom na convivência com aqueles pais, o quanto algumas daquelas atitudes foram benéficas para você, mesmo que movidos pela dor, foi a mola propulsora para o futuro.

Essa ideia de fazer o melhor para o filho não vem de agora, vem de muito tempo atrás. Ou seja, seus pais também pensaram em fazer o melhor por você e, como diz Elis Regina:

"Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais"

Quero encerrar esse texto propondo aos pais que reflitam e perdoem a forma como foram educados e pensem o quanto daquela educação ajudou a construir a pessoa que se é. Perdoem e não repitam, façam diferente sem precisar usar o anti-modelo. O anti-modelo pode ser a grande armadilha que fará você vivenciar o mesmo drama da infância. Ter um ditador em casa criado por você é igual a ter pais rígidos que fizeram com a intenção de ser o melhor para você.